terça-feira, abril 19

conversas

Num dos cantos desta sala de professores (onde passo cada vez menos tempo, mas é o único sítio onde posso, a partir da escola, aceder à net) há quem discuta a formação de docentes.
Entre as necessidades referenciadas e as certezas das certezas a abordagem vai directa, direitinha à necessidade de modelos de actuação, um pronto-a-vestir também pedagógico, também didáctico, pronto a implementar, receita infalível para a situação com que um ou outro se defronta e confronta na sala de aula.
Será que há um modelo de formação? Será que há uma receita, mesmo que falível, que possa ser adoptada, generalizada?
Conversas...

segunda-feira, abril 18

dos sentidos

...da escola, pois claro.
Uma outra realidade com que me confrontei este fim-de-semana.
Uma miuda a quem em tempos aconselhei sobre possibilidades, alternativas e futuros, no final do 9º ano, encontra-me e dirige-se-me. Obrigado professor, hoje reconheço que tinha razão. Pergunto do porque e diz-me que há três anos pensava abandonar a escola, optar por um qualquer trabalho que lhe aparecesse. Por indicação minha e decisão familiar ingressou numa escola profissional cá do sítio, em área que menos predicados lhe ofereceu. Hoje, a terminar o 3º ano, o equivalente ao 12º, disse-me que se preparara para os exames de acesso ao ensino superior com um média bastante razoável, e que tem um sentido de vida.
Fiquei contente e satisfeito, obviamente.
Assume-se, para além dos afectos, um outro aspecto que em demasiadas ocasiões a escola (e os professores) se esquecem de assumir, que entre os 11/12 anos e os 15/16 é necessário criar um sentido ao trabalho escolar e à vida destas pessoas que saiem da fase do armário e caminham para a dolescência mas que não são um nem outro.
Procuram sentidos, objectivos, propósitos. Têm demasiadas perguntas e não menos respostas nas cabecinhas que são ainda muito gelatinosas. Sem ajuda, sem apoio, sem orientação, que muita das vezes não têm em casa, acabam por se perder nas franjas do insucesso, da indiferença, do alheamento.

dos afectos

Cada vez tenho mais fundo no meu pensar e no sentir a escola que as relações que aqui se estabelecem, dentro ou fora da sala de aula, entre colegas docentes ou entre docentes e alunos ou com auxiliares, assentam na gestão dos afectos, dos sentimentos.
Cada vez mais me convenço que a relação pedagógica se sedimenta numa teia de relações afectivas, onde a palavra é determinante e a troca de cumplicidades não menos.
Hoje, numa aula, uma aluna mostra-se assertiva, mais que num qualquer outro dia. Aproximo-me e com algum receio de estragar a situação, dogo-lhe que gosto de a sentir assim, simpática. Que a sua simpatia do dia se reflecte no trabalho, quer em termos de rendimento, quer de qualidade. Olha para mim e sem dizer palavra abre-me um sorriso daqueles em que agradeço ser professor e poder admirar.

das referências

Não resisto a este exercício, ao de agradecer aos passantes, a todos aqueles (e aquelas) que têm a pachorra de por aqui passar, alguns de modo diário, vá-se lá saber com que masoquismo.
Ultrapassei a barreira [psicológica] dos 10 mil passantes. É certo que grande parte deles é da minha exclusiva responsabilidade. Gosto de me ler, de procurar os meus erros, de olhar as minhas contradições, de sentir um ou outro sentimento, de perspectivar o que sou, o que quero ser, o que gostaria de ser.
Mas há uns quantos que sei que não são meus, são de amigos (e amigas) que tive (e tenho) o privilégio de ler, de sentir perto, pertinho de mim. De sentir aqui tão perto quanto a amizade permite e possibilita.
É deles, de alguns destes amigos, a responsabilidade de por aqui continuar a escrever barbaridades, a ser impertinente, a deixar a minha opinião, sem que alguém me a peça, ideias sobre esta coisa que nos move e une, a escola, a educação, a profissão docente.
Obrigado pessoal.

desafios

Não sei se foi a partir daqui mas foi, de certeza, por sugestão deste amigo, que surgem um conjunto de perguntas e de respostas que podem pronunciar (aprofundar?) sobre quem somos nesta never land da blogosfera.
Exercício entre o académico e o pessoal, uma vez que, como é marcante na web, podemos procurar iludir o outro, iludindo-nos a nós, fazermos crer que somos um outro que, talvez, gostássemos mais de ser. Um pensar entre o momento de uma circuntância e o amadurecer do que há-de (pode?, deve?) ser escrito. É um exercício de como queremos ser vistos, como quem sai de casa e veste uma dada indumentária para que sejamos percebidos assim ou assado.
Independente de qualquer circunstancialismo, as minhas respostas, a minha imagem. Não se aceita contraditório.
1. Não podendo sair do Farheneit 451, que livro quererias ser?
Cem anos de solidão, por toda a companhia que um solitário pode gostar e ambicionar, uma história de enlevo, de construção não de personagens, mas de pessoas, das suas raízes, do futuro.
2. Já alguma vez ficaste apanhadinho por um personagem de ficção?
Houve, há, um personagem que sempre me impressionou, do qual fiz a minha primeira colecção de títulos, o capitão américa. Só já grande racionalizei a situação, e é uma racionalização, pode ser enganosa, a de que é uma pessoa normal que, de vez enquando, se arma em herói.
Recentemente o senhor Pera, dos Incríveis, pelas mesmas características, virou herói pessoal, personagem de adoração.
3. Qual foi o último livro que compraste?
Sem ser daqueles de obrigação, dois ao mesmo tempo, na pausa da Páscoa, Anjos e Demónios, Dan Brown, e As Memórias das minhas Tristes Putas, Gabriel Garcia Marquez.
4. Que livros estás a ler?
Perrnoud, Pedagogia Diferenciada da razão à acção. Evidentemente, A. Nóvoa.
5. Que livros (5) levarias para uma ilha deserta?
Cem anos de solidão, Os Maias, Em tempos de Amor e Cólera (nunca me canso de os reler, de voltar a eles como a porto de abrigo, a um recarregar de mim mesmo), Aparição (recordar o que sou (eborense e professor) e o que somos, portugueses. O Labirinto da saudade, para ter a certeza que não me apeteceria regressar.
6. A quem vais passar este testemunho (três pessoas) e porquê?
A alguns a que quereria passar a ideia, já me o fizeram, mas há sempre pessoas que gosto e que aprecio, pela escrita e pela simplicidade.
Proponho a Sofia, a Lucília e a Selma porque tenho aprendido a gostar de pessoas que não conheço, e porque são mulheres que me obrigam a ser o que sou.

quinta-feira, abril 14

das saudades

A propósito dos amigos de alex ou, mais apropriadamente, dos amigos do Ademar, repesco a temática para o meu lado, para assumir algumas saudades da gente com quem resisti e sobrevivi ao meu curso.
Já lá vão quase 20 anos da data de conclusão, faltam 3 anos para esse efeito. Provavelmente fruto de alguma saturação mútua, de um cansaço inevitável após um período de 5 intensos anos, de trabalho, de camaradagens, de cumplicidades e desgastes que, depois da separação, nunca mais tive conhecimento do pessoal. Excepção feita a um ou a outra que por aqui ficou (um António e dois joaquins), a uma colega com quem, em tempos, troquei picardias políticas, do resto nada.
Nem um sinal, nem uma troca de mimos.
Desse grupo de quase trinta pessoas recordo 4 ou cinco com quem acompanhei quase de princípio a fim. Com quem troquei opiniões e ideias e me formei enquanto pessoa e enquanto docente.
Não os encontro na blogosfera. Sei que andam por aí, algures. Que estejam bem.

quarta-feira, abril 13

das dúvidas

Na parte final de um comentário a um amigo, deixo duas perguntas que decorrem de um certo esmorecimento da blogosfera, de uma aparente acalmia, que uns justificam pela falta de tempo outros pela repetição das ideias e dos textos.
Por uma ou outra razão, ou por nenhuma delas, replico aqui as questões, deixando espaço para uma arqueologia do futuro, ou seja, para a tentativa de identificar aquilo que fica depois de tudo se passar, o que ficará destes textos, o que se fará destas ideias, destas vontades.
É em função desta arqueologia do futuro que pergunto (e que procuro condicionar o meu trabalho), como podemos nós partilhar experiências entre escolas, entre práticas, entre tentativas? Como podemos nós utilizar este espaço da blogosfera, este próximo distante, para sermos melhores, para melhorarmos práticas, para percebermos situações, para construir alternativas, para evitar o desgaste de ideias, para se evitar a re-invenção da roda?
Será esta a nova agenda da blogosfera?
Será?

do erro

Ontem, em conversa com um grupo de alunos (de 8º ano), reconhecemos que, ao contrário de José Gil em Portugal Hoje, o medo de existir, nós não temos medo de existir, temos vergonha de existir, de sermos o que somos, de nos reconhecermos ao espelho.
Podemos perguntar quem será melhor que nós. Podemos dar a resposta óbvia que não há quem nos alcance e nos atinja. Esta vertente umbilical de autoanálise é característica de um marasmo, de uma estupidificação reinante, esclerosada e petrificante.
Quem não é como eu é contra mim. Quem pensa o contrário é por que me inveja. Ingorância. Medo. Vergonha, apenas.
Na escola ou na sociedade, há quem tenha medo, procure a subserviência e a indiferença como armas de desculpabilização e desresponsabilização. Mas há os outros, aqueles que apenas e só têm vergonha de ser, de assumir o erro, de voltar atrás e procurar outras hipóteses.
Enleamo-nos em pormenores apenas para atrasar esse reconhecimento, para fugir à nossa incapacidade de assumir diferente, de ser diferente.
Precisamos de uma inscrição social e profissional. Precisamos de assumir erros e ignorância.
Começo por mim. Cada vez mais, cada dia que passa, com o assentuar dos anos e da idade estou mais parvo, idiota, estúpido e ignorante. Desfazado do tempo e de mim mesmo.
Preciso de educação. Preciso de formação.
Quem se segue?

Impressão (?)

Não sei, provavelmente será apenas e somente impressão minha, mas sinto os alunos alheados do que andamos a fazer e os professores indiferentes ao que fazem.
Será impressão minha? Será exclusivo da minha escolinha?

segunda-feira, abril 11

da vontade

... ou da falta dela.
Reconheço que ando com pouca vontade de escrever. As ideias, entre o nublado e o indefinido, custam a sair. Já antes aqui uma vez o escrevi, não me apetece escrever banalidades e menos ainda sobre coisa nenhuma.
Talvez fruto de um fim-de-semana demasiado comprido, com noites demasiadamente pequenas, talvez pelo desgaste inevitável que o tempo provoca na escrita de uma pessoa, estou parado, algo alentejano.
A escola escorre normalmente, entre o descomprometido e o não inscrito, isto é, entre a pessoa que está bem em qualquer lado e fazer qualquer coisa, e os colegas que procuram passar de mansinho, certos que para o ano há mais, nesta ou em outra qualquer escola.
Custa-me, de quando em vez, assumir a banalidade dos meus dias.
Fases.

sábado, abril 9

Mudanças

Perspectivam-se mudanças na escola, na educação e no ensino.
Seriam inevitáveis, face à alteração de sentidos e de paradigmas políticos e partidários.
São imprescindíveis no sentido de criar na escola um espaço de oportunidades (que tendencialmente a escola tem vindo a perder), isto é, permitir que a escola seja uma espaço de futuro e não apenas de um hoje periclitante, indefinido.
Algumas dessas mudanças, de acordo com o que se ouve, irão colidir com interesses mais particulares, com situações de conforto e comodismo, irão contrariar apatias e amorfismos instalados. Estou certo que não irão agradar a todos e que alguns sindicatos e sectores profissionais se insurgirão.
Mudanças que muito provavelmente procurarão mexer na organização (de tempos e espaços, e na gestão dos recursos), na definição de projectos e de objectivos.
Estou certo que muitos irão dizer que não há condições, apenas espero que o ministério considere oportunidades de trabalho e de formação local. Que permita, cada vez mais, a construção local e contextual da escola e da educação.

sexta-feira, abril 8

do fio

Não quero acreditar naquilo que parece que estou a ouvir. Pelas poucas e gotejadoras notícias oriunbdas do Ministério da Educação fico com a sensação, com a impressão que é mais do mesmo, que não há uma ideia sobre a escola, a educação, a formação, o ensino. que ainda estará carente na liderança ministerial qual o papel do professor e dos diferentes actores educativos neste processom, nesta construção social e política que é a educação e o espaço onde ela prioritariamente acontece, a escola.
Fico, em conversas aqui e ali, sobre tudo e para nada, que ainda não há uma ideia de qual o papel das estruturas desconcentradas, de quais as possíveis acções ou a necessária intervenção para apoiar escolas, colaborar na construção local da escola.
Fico com a manifesta sensação que, apesar de existir um programa de governo (perante o qual me reconheço enormemente) não há, ainda, por enquanto um fio de trabalho que consiga, pelo menos, transparecer na comunicação social e, menos ainda, perante o nosso trabalho quotidiano.
Será impressão minha?

da procura

Alguém me procurou, alguém procura este espaço na procura dos sentidos da escola.
Esta blogosfera é, para além de um espaço de participação e debate, um espaço de voeyrismo, onde vemos sem sermos vistos, onde procuramos aquilo que não queremos encontrar, onde lemos sem sermos lidos, onde procuramos ver o outro sem sermos vistos.
Nestas peripécias dou quem quem procura não um mas vários sentidos para a escola, para as identidades que aqui, na escola, são definidas e (de)formadas.
Se consigo esclarecer algo, é que não sei. Se consigo ir ao encontro de algum tipo de expectativa, não sei. Mas quem sabe?

quinta-feira, abril 7

do como

Como equilibrar a necessária unidade do sistema com a pluridade de ideias e opiniões, de práticas e da construção da escola enquanto realidade social e contextual?
Ainda mais prático, como promover a pluralidade e respeitar a unidade?

multirio

Um sítio brasileiro entre o excelente e o excepcional. Simplesmente a não perder para quem, como eu, ainda não o conhecia. Belíssimo. Assim se vê o que a escola pode ser.

da cidadania

Nem de propósito, depois da posta anterior, entre o cuscar quem por aqui procura ideias e opiniões, leituras e comentários, dei com este texto (uma breve sinopse) a partir de uma pesquisa do google brasileiro.
A educação para a cidadania só terá chance de produzir efeitos se for um problema de todos e se perpassar todas as disciplinas e todos os mornentos da vida escolar. Leva-la a sério significa, portanto, ir além das boas intenções e dos discursos, significa transformar profundamente os programas, as atitudes e as práticas ! Philippe Perrenoud, Escola e Cidadania.
Querem mais?!

viragem (?)

Ontem um amigo procura-me para me questionar sobre a situação em que está o ensino, foram estas as suas palavras.
Tinha estado, momentos antes, na reunião da escola de um dos seus filhos, que frequenta o 7º ano, onde ouviu cobras e lagartos da turma, desinteressados, mal educados, mal comportados, alheados do trabalho escolar, conflituantes.
Disse-me que já em conversas com a directora de turma da filha (5º ano) tinha ouvido o mesmo, no mais velho, 11º ano, o destaque foi à indiferença, à falta de objectivos, à falta de esforço para conseguir resultados, que não sabem o que querem.
Entre a dúvida e a surpresa por de uma só vez ter constatado a situação, pergunta-me o que se passa com a escola, o que é os professores andam a fazer, sobre a situação em que está o ensino.
Começo-me seriamente a convencer que estamos a atravessar um momento de viragem, de reconfiguração conceptual e metodológica, de viragem espistemológica, no que ao trabalho escolar e educativo diz respeito. Não consigo ainda perceber contornos, descrever situações ou, sequer, apontar pistas dos novos caminhos. Mas a situação é generalizável pelo menos em contexto alentejano. As respostas que têm sido definidas são as mesmas de há décadas. A carolice e a boa vontade de muitos professores fazem com que se procurem outras propostas de trabalho mas que acabam, de um modo ou de outro, por ser mais do mesmo, da mesma maneira com a desgraça de ser face a raízes diferentes.
Em que ponto estamos nós? qual o balanço que se pode fazer de 30 anos de democracia da escola? quais as razões deste desinteresse, do alheamento, da indiferença, da falta de sentidos e de objectivos face ao trabalho escolar? o que pode ser feito? qual o papel do professor nesta reconfiguração, nesta viragem?
Será que se justifica manter práticas, estratégias, metodologias, conteúdos e conceitos, organização e princípios que cheiram a bafio face aos desafios do hoje, do amanhã?
Fico na mesma expectativa de um amigo, prefiro sonhar que estamos a discutir currículos, a construir localmente a escola e a educação. Mas estaremos mesmo?

quarta-feira, abril 6

dos exames

Em face dos rumores sobre a possibilidade de se acabar com os exames de 9º ano, nem sequer ainda realizados, volto à conversa embalado que fui pelo diálogo entre o Ademar, em dois posts, 1 e 2 e Vital Moreira (em Causa Nossa).
Tendencialmente aproximo-me mais da opinião do Ademar perante o qual subscrevo a questão quanto ao facto de se procurar prolongar a escolaridade (facto com o qual concordo) e se colocarem barreiras, obstáculos no meio desse percurso (afinal, o que se pretende).
Estou do lado daqueles que consideram que os exames não são, necessária nem obrigatoriamente, marcos de exigência, rigor e qualidade do sistema.
Mas sinto, na escola, que a grande preocupação recai, por um lado, no receio de um prolongamento do deixa andar (os professores não sabem, em muitas situações ou contextos, como lidar com o crescente desinteresse, alheamento, indiferença do aluno, a falta de objectivos ou com o aparente facilitismo em que recai o trabalho escolar) e, por outro lado, num inquirir sobre o que fazer perante aqueles que não conseguirão ultrapassar o obstáculo exame.
São contradições, dúvidas a mais para um sistema que quotidianamente enfrenta múltiplas situações e momentos entre o angustiante e o decisivo.
Considero que os exames, pelo menos ao nível de 9º ano, não serão uma resposta cabal a esta dúvidas, nem o remédio que muitos professores e pais julgarão adequada em face da necessidade de exigência, rigor e qualidade que o sistema, aparentemente, carece.

da saudade

Uma colega da escola, ao fim de quase 41 anos de docência, passou à reforma.
Perguntei-lhe deixas ou levas saudades.
Pensou, olhou para mim e com uma calma e uma ponderação que não lhe conhecia disse-me, não sei, manel, como está hoje o ensino não sei se deixo ou se levo saudades.
Foi a minha vez de ficar a pensar. A pensar em como está hoje o ensino, nas saudades do futuro, no caminho que tenho pela frente, naquilo que me falta cumprir.

terça-feira, abril 5

da ilusão

Um professor preparou a sua aula considerando todos os seus pontos de vista, em função dos seus interesses, das suas preocupações. Preparou uma aula toda pimposa com recurso ao multimédia, a uma apresentação powerpoint de cerca de 25 a 30 minutos.
Estava contente, satisfeito com o seu trabalho, com o empenho, o esforço e a dedicação que tinha colocado naquela aula.
A turma é complicada, entre o desinteresse e a indiferença, com situações pessoais desestruturadas e desestruturadoras de uma dinâmica de grupos. Mas aquela preparação estava, reconhecia, excelente. Não havia desinteresse que pudesse resistir.
No dia da aula, da apresentação do produto e do empenho da sua preparação, montou ele próprio toda a parafernália, não fosse algo falhar sem ser por sua responsabilidade, testou e voltou a testar a apresentação.
Alunos presentes. Esperou que os ânimos acalmassem, ficassem prontos para receber o fruto do seu trabalho.
Rotundo fracasso. Falhanço absoluto. Sentiu-se ir pelo cano, desesperar frente aos alunos, aos colegas, aos docentes orientadores.
Na conversa que tivemos, descobriu que a preparação foi a sua, a preocupção e o interesse o seu, o empenho apenas o pessoal. Apenas ele se envolveu, participou. Os alunos foram considerados em face de um outro centro de interesse, de um outro fóco de motivação, de outras experiências. Os alunos não foram nem vistos nem achados no processo. Não foram envolvidos nem ouvidos.
Quantas e quantas vezes isto sucede, a preparação de uma aula considerando o nosso ponto de vista, o nosso interesse e as nossas capacidades, um gosto pessoal. Se esquece o aluno.