segunda-feira, fevereiro 28

da crise. Mais um apontamento onde podemos perceber, analisar e perspectivar o nosso quotidiano.
Fundamental para procurar perceber quais os possíveis ou eventuais caminhos de saída deste buraco onde nos colocaram, onde nos colocámos.
E não é inocente a comparação entre dois dos mais centralistas padrões da escola nacional, o português e o francês, como não é inocente ser exactamente nestes que surge o maior descontentamento.
aniversário. Hoje uma das minhas referências enquanto pessoa e professor faz anos. O meu pai, Manuel Cabeça mais velho, chega aos 70 anos.
Mais ou menos sem querer, apenas com a sua figura, a sua pessoa a sua discreta e, por vezes, distante presença foi um dos professores que mais me influenciou, mais me marcou.
Marcou-me essencialmente em dois aspectos, na tolerância para com o outro, para com as ideias, e na paciência que é preciso ter para aturar determinadas pessoas ou saber passar por certas situações.
Parabéns meu pai.
das ilhas. Chamo aqui a atenção para a imagem que o meu colega e amigo Miguel colocou ontem no seu sítio.
É um desafio, é uma ângustia, são multiplas sensações, entre a incapacidade, a frustação, o zangado e o triste aquelas que percorrem quando damos e nos apercebemos destas situações, onde somos ilhas no meio da gente.
Esta é uma das muitas situações com as quais a escola, e os professores, se confrontam quotidianamente. Esta é uma das situações que dá origem aos conflitos de equilíbrios de poderes, de disputa de espaço, de afirmação de posições.
A escola, professores, isoladamente não conseguirão dar resposta a esta situação. Sozinhos mais não fazemos que acentuar ilhas, talvez criar pontes entre elas, mas não deixaremos de ser ilhas.
A colaboração, a partilha, a troca de ideias, a participação, a cooperação, o envolvimento, a troca, o diálogo são elementos que podem colaborar na resolução destas situações.
Saibamos nós, professores, dar origem aos diálogos, à conversa, estabelecer pontes, aproximar pessoas e ideias e muitos dos nossos problemas estarão resolvidos.

domingo, fevereiro 27

das difíceis. Ontem, no âmbito de uma acção de formação que frequento [de modo a obter os necessários créditos à subida de escalão], colocaram-me uma pergunta das difíceis, daquelas para as quais não tenho uma resposta.
Por que sou professor? Por que escolhi esta profissão?
Não sei. Nunca soube, nunca percebi o por quê desta minha opção.
A recordação mais forte que tenho, relacionada com a opção profissional, é a de, já grandinho, provavelmente no final do 12º ano, ter assumido que seria professor e, mais importante, professor de História.
Mas em pequeno nunca quiz, nunca pensei em ser professor. A minha filha brinca aos professores, o meu filho afirma que gostaria de ser professor. Não me lembro nunca de estas situações terem ocorrido comigo.
Sou professor. Pronto final. E gosto de ser.

sexta-feira, fevereiro 25

quotidiano 2. Sexta feira de tarde. Sala de professores. Sala quase cheia, docentes distribuídos por diferentes mesas. Pequenas conversas, pequenos sururus.
Mas um quase silêncio.
Alguém questiona, afinal, que se passa nesta sala que é um silêncio destes? Afinal é 6ª feira. Alguém, sem levantar muito a voz, quase que a passar despercebido, diz que é exactamente por isso, afinal é 6ª feira.
Fim da semana. Fim-de-semana. Vamos a ele.
quotidiano 1. Depois de almoço, ao entrar na sala de professores, oiço comentários sobre um eventual estado de embriaguez de um conjunto de alunos. Oiço, mas não percebo de que turma e/ou em que circunstâncias a colega se terá apercebido dessa eventualidade.
Depois do toque encaminho-me para a sala de aula. No corredor sou abordado por um conjunto de alunos que, entre o eufórico e o brincalhão, dizem que beltrano e sicrano estão bêbados.
Quando entro na sala de aula um deles dirige-se-me e sinto o cheiro a alcóol.
Para os meus botões em fracção de segundo penso como reagir, que fazer.
Impensável deixar seguir a situação, ficar-lhe indiferente. Não propriamente desejável envolver o conselho executivo pelas conseuqências ainda piores que poderá acarretar.
Procuro a directora de turma e comunica-se aos encarregados de educação. Comentário de um deles, ó setor foi os pais pais sabem que eu bebo.
Sinto-me regressar a tempos atrás, a anos passados, a outros lugares, com os mesmos problemas com os mesmos desafios. Tempos?

quinta-feira, fevereiro 24

dos modos (2). Ainda a propósito desta posta uma questão que ficou por fazer, apesar de nesta altura do período escolar, não estarmos grandemente disponíveis para a conversa, mas cá fica ela:
Qual a tua preferência, qual o teu modo preferido de leccionar, com base na convicção ou na confiança?
dos preparativos. Estou a organizar o meu final de período lectivo. Puxo de uma folha, um quase A5 que utilizo frequentemente para anotar ideias, deixar opiniões, colocar propostas e, neste caso, organizar tarefas.
Registo, elaborar relatórios de turma, estruturar avaliações, acrescento os níveis de ensino e as respectivas turmas, de modo a não deixar nenhum de fora, a não esquecer nenhum dos grupos ou dos objectivos a que me proponho. E páro. Não sei se me faltam ideias se me faltam tarefas se me falta a vontade. Não sei qual é, mas sei que quase de certeza é um deles.
No meio ainda acrescento a preparação das últimas fichas de avaliação, um quadro de autoavaliação e de avaliação do trabalho do professor.
Entretanto escrevo estas linhas quase que a necessitar de algum tempo para ter a certeza que está feito, que o meu trabalho está orientado.
O trabalho está orientado, eu é que preciso de orientação.

quarta-feira, fevereiro 23

dos modos. Ensinar é um acto relacional. E há modos próprios que suportam este acto, esta relação e que a condicionam, quer na relação presente quer no que ela pode originar, o que daí pode resultar.
Criar, apoiar, incentivar este acto sem afectos, sem qualquer tipo de sentimento é despejá-lo, despi-lo dos seus mais profundos sentimentos, despojá-lo da sua razão de ser.
É isto que fica explícito num dos blogues com as mais longas pequenas frases, como esta
Existe uma grande diferença entre ensinar apelando à convicção ou à confiança. E este problema é partilhado quer por doutores de Religião quer por professores de Ciência.

terça-feira, fevereiro 22

da música. Hoje dei música aos meus alunos. Música chata, difícil de digerir, de perceber.
No âmbito do barroco e da arte barroca, para além de vermos imagens do barroco optei, como quase sempre o faço, por trazer autores do barroco, Mozart, em primeirissimo lugar, Bach, Vivaldi hoje foram os destaques.
Não disse nada e no meio da aula, enquanto se dissecava um quadro de Rembrant, enquanto se rabiscavam ideias, coloquei o disco e levantei o som.
Primeiro impacto de espanto, daquele questionar matreiro, de coisas de cota, pois claro. Depois uns quantos procuraram perceber o que era, outros para que era.
Passámos o resto da aula a ouvir Mozart - sonatas para piano. No meio da conversa saiu-me um lugar comum, não é preciso gostar, não é para gostar já. Basta ouvir.
do desgaste. Na escola, em qualquer escola de qualquer nível de ensino, realizam-se sempre coisas, pequenas ou grandes acções, pequenas ou grandes tarefas, pequenos ou grandes momentos, sejam de convívio, partilha, festivas ou outras.
Umas há que conseguem sair do restrito espaço dos corredores da escola, outras ficam por eles condicionados, delimitados, outras ainda nem a esses conseguem atingir.
Reconheço que já me senti preocupado, angustiado quando realizava uma ou outra acção (e já realizei muitas). Não conseguia perceber o porquê de ficarem condicionadas a um pequeno e restrito circulo, fosse de amizades, curiosidades, interesses ou de interessados, participantes ou conhecedores do que se fazia, do que se passava, do que acontecia.
Com o passar dos anos limito-me a fazer. Não tenho, não sinto qualquer tipo de preocupação sobre os eventuais ou possíveis impactos daquilo que faço na escola onde estou. Primeiro porque o faço com os meus alunos, segundo com amigos. Depois porque já me passou a febre de um qualquer tipo de reconhecimento e ainda porque considero que a educação é sempre de longa duração e não é um acontecimento, um momento que altera seja o que for.
Tudo isto, todo este português para descansar um amigo, que discorre exactamente sobre esta problemática e apoiar outros na realização de coisas, momentos, acções na escola.
A escola precisa. Os miudos agradecem. Disso eu sei. O resto...
das ideias. Um texto que se pode tornar uma referência na área da análise da pedagogia para não entendidos.
Um texto onde se aborda, de forma clara e directa, aquilo que E.P.Coelho designou de "opinativo estúpido", isto é, a pretensa opinião que todos temos sobre tudo e mais alguma coisa, algumas dela sem sabermos do que falamos. Mas falamos.
Vale a pena, nem que seja para se iniciar a desmontagem de alguns mitos, outros mais.
do quase. Quase no final de mais um período lectivo, as ideias não abundam, as preocupações sobre as avaliações marcam presença e aquelas pequenas (grandes) coisas do nosso quotidiano condicionam [tolham] o nosso viver.
Se juntarmos a isto uma rede informática do tempo da pedra, sempre virada [de viroses e do avesso], ocupada e solicitada, sobra pouco para vir aqui dizer olá, marcar este ponto, quase como obrigação que não é.
Resultado e consequência de tudo isto, uma presença algo intermitente nesta blogosfera. Apenas a suficiente para saber que não desisti de aqui deixar ideias, opiniões, sentimentos e coisas da escola... com estórias dentro.

segunda-feira, fevereiro 21

da manutenção. Apesar de tudo, apesar do carácter memorável que atribuo à noite de ontem, o dia amanheceu como quase todos os outros, solarengo, frio.
Apesar de tudo, o dia foi igual, as pessoas corriam de um lado para o outro com o nornal ar indisposto de mais uma manhã. A vontade dos miudos na sala de aula persistiu a mesma e as conversas quase que foram iguais.
Quase, pois houve subtilezas, pequenas nuances, grandes preocupações. As conversas rodaram em torno de quem será o nosso(a) ministro(a), entre a ângustia de outros desafios, mais uns, de outras reformas, mais uma, de novas modas e outras tendências o desejo (infrutífero?) de ser um dos nossos, isto é, alguém que conheça a escola, os diferentes níveis de ensino, os nossos problemas, as nossas ambições e não apenas mais um caríssimo docente do superior em que do conhecimento da escola apenas tem recordações vagas de quando por lá andou ou por que os filhos lá andam e conhecimento científico.
A ver vamos.
ME-MO-RÁ-VEL. Só agora, quase no fim do dia, consigo encontrar um computador com acesso à net. Não estou a par do que se disse e se escreveu nesta blogosfera, nem aqui nem na generalidade da imprensa diária.
Mas certamente muito já terá sido dito e escrito, pensado a rezado, definido e perspectivado.
Entre tudo o que se disse e apenas com a vontade de expressar o meu contentamento, tenho que dizer que o dia de ontem, a noite de ontem foi simplesmente ME-MO-RÁ-VEL, assim mesmo, silaba a silaba, de modo a sentir o gosto e o prazer de cada letra numa vitória que ficará para a História.
Haja agora capacidade de ousar e ousadia de arriscar e bom senso e teremos um outro país, um outro futuro.

sábado, fevereiro 19

das escritas. Perguntaram-me há dias como é que conseguia falar [escrever] só e exclusivamente da e sobre a escola, onde é que há tanto assunto para se poder escrever e descrever como o faço e sobre o que faço.
Reconheço que fiquei entre o surpreso e o agradecido.
Surpreso por que falar da escola é fácil, tão fácil que há imensa gente que, por dá cá aquela palha, discorrem ideias, apresentam números, levantam hipóteses, apontam sugestões, apresentam propostas, definem objectivos, etc. Uns por conhecerem a escola, nela trabalharem ou simplesmente por lá terem andado, sabe-se lá em que condições, ou por que agora são pais/mães e lá vão acompanhar a prole. Mas por tudo e por nada se opina sobre a escola.
Agradecido por reconhecer que encaro a escola como uma totalidade. Ainda que pontualmente possa discorrer sobre um tema ou outro, centralizar um assunto ou destacar uma problemática não o consigo fazer sem que esteja colado à escola como um todo.
Enquadra-se, nesta minha leitura, a metáfora orgânica, em que encaro a escola como um corpo em que, perante uma qualquer forma de abordagem, não posso desmembrar a parte injuriada, isto é, sujeita a tratamento. Qualquer intervenção numa parte, por muito específica que seja, tem reflexos no todo.
Esta tem sido uma das minhas principais dificuldades em isolar um aspecto, um tema, um assunto que me permita avançar para um projecto de doutoramento. Por muito que diga ou invente outras coisas, esta minha forma de encarar a escola é, ao mesmo tempo que uma vantagem, um obstáculo a um processo de investigação.

sexta-feira, fevereiro 18

das eleições. Inevitavelmente hoje, ao longo da manhã, nos intervalos de maior afluência à sala de professores, fala-se de política e de eleições. Confirmam-se, ou infirmam-se, as sondagens, fazem-se comentários aos comentários, mas há duas coisas que me surpreendem e que não há meio de deixarem a escola e os professores.
Por um lado, ninguém se compromete, niguém assume uma posição, ninguém defende um dado partido. Pela contabilidade desta sala de professores [peço desculpa mas não generalizo] domingo ganha a abstenção, o voto em branco. Segunda feira logo se verá se assim é.
Por outro lado, subsiste nas conversas de professores [se calhar não só] que os partidos são todos iguais, persiste e insiste-se na ideia que não há diferenças entre partidos, entre lideres, entre protagonistas. É tudo a preto e branco, nem gradações entre um e outro se permitem.
Banalidades do lugar comum, da ideia feita.
É certo que uma ideia (a do não compromisso, a do não comprometidmento, a do não envolvimento) acompanha outra (é uma forma auto-justificativa, racionaliza-se em função da não diferença a indiferença).
Mas sendo os professores um dos grupos sociais que, de acordo com estudos feitos, mais apoia o Bloco de Esquerda é de estranhar a indiferença.
30 anos de democracia ainda não criaram espíritos livres?.
do silêncio. Este senhor, amigo virtual de longa data, cumplice de desabafos e de ideias, festejou 40 e queria passar despercebido. Entrou na curva ascente da ternura, onde os sentimentos se encontram com a razão, onde a emoção fala à razão e, por incrível que possa parecer a alguns, entendem-se.
FESTEJOU 40 E QUERIA PASSAR DESPERCEBIDO. QUERIAS, MAS NÃO CONSEGUES.
PARABÉNS.

quinta-feira, fevereiro 17

da paixão. O Miguel deixa um comentário a esta minha posta que me leva a tecer, a partir dela, outras ideias, outros comentários.
Uma das coisas que falta na nossa escola é, no meu entender, paixão, gosto, prazer, encanto naquilo que se faz, onde se faz, com quem se faz.
É fácil perceber o gosto que uns e outros têm (ou não têm) pelo prazer com que se fala daquilo que se gosta, daquilo que se ama.
Um exemplo.
Há tempos, em plena sala de professores, discutia-se a relação pedagógica, concretamente a relação professor/aluno enquanto elemento social e afectivo de produção de conhecimentos. Às páginas tantas estava eu e uma colega empenhamente a conversar sobre o imenso prazer que é ser professor, ouvir a gritaria das crianças, brincar com as imperfeições, despertar nelas o interesse e o gosto por aquilo que fazem, ter-se prazer em ser-se bom naquilo que se faz. No meio de um mesa onde estavam uns 6 ou 7 elementos, todos professores, houve alguém que se atreveu a dizer, bolas vocês gostam mesmo disto. E é a mais pura da verdade.
Ser professor não é fácil, por muito que se diga o contrário, a construção permanente de sentidos, a variadade de situações e casos, a multiplicidade de acontecimentos, a simultaneidade de pedidos, a reprodução incessante de ideias, esgota facilmente uma pessoa. Atender uma pessoa de cada vez é uma coisa, atender e negociar situações, afectos, conhecimentos e poderes com 20 ou 30 é outra complemente diferente.
Se não se gosta, se se está contrariado imagine-se o sacrifício que não é.

terça-feira, fevereiro 15

da sala de professores. Quando fumava gostava do cantinho, por que era efectivamente um cantinho, não tem nada nem de carinhoso nem de ternurento, que pertencia aos fumadores, nos tempos em que existia um cantinho onde se podia pecaminosamente pecar de cigarro em punho.
Hoje não reconheço grande utilidade à sala de professores. Tenho que reconhecer que desde que deixei de fumar, não gosto da sala de professores.
Há uns anos atrás era por que era novo na escola, tinha chegado tarde e não me enquadrava. Depois, dizia eu, por que a escola tinha uma cultura e um clima muito próprio que dificilmente aceitava novos protagonistas. Depois ainda por que gosto de estar na sala de aula, escrever coisas, registar ideias, preparar o espaço. Seja por que for, não simpatizo com a sala de professores, nem com a decoração, nem com a arrumação. São, digo eu, todas muito institucionais, muito institucionalizadas, quando não mesmos ritualizadas, isto é, dadas a fins e meios muitos específicos de uma cultura profissional, de amizades entre o social e o conveniente.
Agora, a partir deste comentário "Desculpa lá este meu desabafo. Não é fácil falar destas coisas na sala de professores" retirado do meu amigo [infelizmente ainda virtual] Miquel, permitam-me perguntar: para que serve uma sala de professores?
Um launge onde se espera a próxima passagem? Um tunel por onde rapidamente se entra e rapidamente se sai? Um canto onde o guerreiro recupera forças? Um ponto de encontro, qual feira de turbulências e desencontros? Um quiosque de avenida onde, entre uma bica e dois dedos de conversa, se sabem mais algumas novidades?
Porque efectivamente é verdade que uma sala de professores não é para todas as conversas.
Gostos. Manias. Pancadas.