sexta-feira, outubro 12

da Comenda

ora vamos lá dar azo e oportunidades ao meu mau feitio;
não tenho escrito nada sobre o tema da escola da Comenda essencialmente por duas razões;
considero que não sou defensor de nada nem de ninguém, menos ainda de quem considero que se sabe defender; como têm sido ditas tantas coisas, algumas das quais claras enormidades, que dizer e escrever mais é chover no molhado;
mas, mesmo que assim o considere, tenho de dizer que o meu receio, neste momento, vai no sentido de a emenda ser pior que o soneto;
concordo com a posição adoptada pela câmara municipal, de deslocar os alunos, devidamente enquadrados num dado projecto e acompanhados por quem sabe do trânsito, da cidade e da relação afectiva com as crianças;
e atenção esta situação acontece em Évora, como acontece em Montemor-o-Novo, Vendas Novas, Lisboa ou Sintra, entre muitas outras localidades onde os estabelecimentos do 1º ciclo não reúnem as condições para o fornecimento de refeições a crianças;
o que estranho em toda esta discussão, é a ausência dos protagonistas, liderados por uma dita oposição obscurecida e enroscada no anonimato, num toca e foge, no desgaste jornalístico como se fosse caso ou situação única, numa ausência do PS local na defesa de um programa de requalificação do parque escolar e da afirmação de um projecto educativo de matriz socialista;
o que estranho nesta discussão é o assumido desgaste de uma situação como se nada mais existisse para discutir ou comentar ao nível autárquico; o que estranho na situação é a incapacidade de trazer para boca de cena outras situações, seja por parte da vereação socialista, seja pelos vereadores da oposição, tão distantes e quedos face à discussão;
concordo com a posição da Câmara Municipal, como concordo com a assunção de um projecto educativo que permita antecipar estas (e outras) situações antes do início de um qualquer ano lectivo;

da avaliação

a avaliação profissional, de uma qualquer profissão, deverá ter, em meu entender, dois grandes objectivos;
por um lado, identificar situações, circunstâncias que favorecem ou dificultam o desempenho profissional, a assunção das responsabilidades, o assumir das atitudes que se relacionam com uma dada profissão; neste campo podem-se incluir objectivos (tanto qualitativos como quantitativos), as estratégias e as metodologias adoptadas, a organização funcional, entre outros;
por outro, permitir pensar, racionalizar práticas, modos e atitudes associadas a essa prática profissional; por vezes fazemos coisas sem saber que as fazemos, por vezes mesmo sem perceber como é que as adoptámos, as implementamos;
o cruzamento entre um e outro dos objectivos permite relacionar conhecimentos, saberes feitos e produzidos, tanto pelo próprio, como por outros (parceiros ou terceiros) com práticas numa mistura entre teoria e prática que permita a correcção de situações, o reforço de posições ou o colmatar de lacunas identificadas entre essa prática e a teoria;
ora o que o nosso Ministério da Educação propõe vai ao arrepio dessa concepção, limitando-se a insistir na funcionalização da profissão docente, no cumprimento administrativo de procedimentos, a elencar situações quantitativas que pouco contribuem para um desempenho profissional;
corre-se o sério risco de a avaliação de desempenho docente não agradar a ninguém nem a nada, a se alterar assim que a equipa ministerial se mudar, a ser um rosário de comentários que ninguém leva em consideração, a ser inócuo do ponto de vista profissional e de qualificação da escola como uma organização aprendente;
esta proposta, na sequência das anteriores, é mais do mesmo e da pior maneira de pensar o trabalho do professor;
e é pena...

quinta-feira, outubro 11

do parado

tenho de reconhecer e assumir que tenho tido a minha tese em banho maria;
não sei se há espera de ideias, se apenas a descansar sobre alguns dos assuntos que me preocupam;
no meio das conversas tenho tido a oportunidade de ler o Terrear e daí reforçada a minha opção de assumir a disciplina e não a indisciplina na escola como elemento central do processo de investigação;
isto porque toda a concepção das regras, das normas e da definição das condutas pressupõe um determinado modelo de organização da escola e da sociedade, de qual o papel que compete a cada um, das relações que se podem estabelecer;
as situações de indisciplina, muito mais contextuais e individuais (ainda que sempre relacionais e decorrentes de uma interacção) olham um momento, uma situação, um acontecimento;
prefiro ir além disso e procurar perspectivar como se integra a alteração de comportamentos, de públicos e de situações no quotidiano educativo e escolar e isso se reflecte quer na disciplina da escola quer no quadro de regulação do professor face à conformidade social e pedagógica;
agora falar disto não é fácil;porque é um tema premente e urgente, quente e pertinente onde se procuram soluções tipo pronto-a-vestir, que não existem, medidas práticas e individuais, onde são todas circunstanciais, onde todos temos uma ideia, uma opinião sobre as situações e, acima de tudo, uma responsabilidade a atribuir (aos pais que não educam, à sociedade permissiva, ao aluno irrequieto, ao Estado desqualificador, ao governo incumpridor, desautorizador);
mas tenho de deixar de estar parado e procurar avançar, para algum lado...

da antena


ontem voltei às amenas cavaqueiras de um final de tarde, numa das rádios cá da terra com mais dois companheiros;
depois de uma pausa de quase dois meses, reconheço o gostinho do regresso às conversas e à troca de ideias;
no meio da conversa, saiu-me uma frase:
"falta política onde sobra partido", política no sentido da discussão de ideias, na troca de argumentos sobre as opções (de vida, sociais, entre outras), partido na clara assunção do protagonismo excessivo de pretensos actores, que apenas procuram ser mais papistas que o papa;

quarta-feira, outubro 10

escola e quartel

não é a primeira vez que o escrevo (mas não me apetece ir atrás à procura desses escritos), mas ontem, enquanto olhava pela janela da sala de aula voltou-me à ideia a associação da escola com o quartel;
a escola (a minha escola, pelo menos) padece ainda de vícios que a enformam de democraticidade;
há uma porta de armas, onde se inicia a selecção de patentes e se faz a triagem dos visitantes; há uma parada onde deambulam adolescentes irrequietos, uma sala de oficiais, uma de sargentos e outra de praças, ainda que haja, pontual e circunstancialmente, algumas misturas, onde as conversas são típicas e, direi, naturais dos postos e das funções de cada um;
esta lógica implementa um conjunto de relações (de poder, de saber, de autoridade, de afectos) que se transpõe para a sociedade em geral, relações hierarquizadas, formalizadas, institucionais;
há dias tive oportunidade de ver outras concepções de escola, numa revista americana sobre arquitectura escolar, onde os espaços agora se apresentam mais fluídos, mais reticulares, mais próximos, mais comunicativos entre si e a provocarem uma maior proximidade das pessoas, um maior contacto informal, muito próximo do que designei como um centro comercial, onde as salas de aula bem que podiam ser as lojas, onde os espaços, ainda que definidos e delimitados, se interligam e articulam com uma outra fluidez;
passados mais de trinta anos sobre a implementação da democracia, a escola permanece, na sua estrutura e funcionalidade, muito pouco democrática - ainda que se apele à participação e ao debate, os elementos simbólicos permanecem (quase) todos lá;
mas há excepções, já se notam alterações;
também já não era sem tempo;

memória


ontem, quase por mero acaso, num zapping televisivo, dei com um dos episódios de uma das séries que mais me marcou, Hill Street blues, na RTP Memória;
foi uma série da qual, durante todo o tempo que esteve em cena, apenas terei perdido dois ou três dos seus episódios;
fiquei contente pelo facto de o tempo não ter passado por cima daquele conjunto de polícias e daquela esquadra; os temas permanecem actuais, pertinentes, acutilantes; a técnica de filmagem, inovadora para a época, não perdeu o seu comprometimento com o espectador, as relações ali desenvolvidas permanecem hoje como ontem plenas de emoção e envolvimento, a música tornou-se um hit parade;
foi memória...

terça-feira, outubro 9

Nobel

começou ontem, pela medicina como tradicional, a apresentação do prémio Nobel deste ano;
as categorias são várias, todas ilustres, a criarem laços de popularidade e de (maior) credibilidade aos seus ganhadores - Saramago que o diga;
este ano fui levado a questionar-me e porque é que não há um prémio Nobel da Educação? porque é que não há um prémio, reconhecido e valorizado, que destaque o trabalho, a investigação, o estudo, a compreensão do que é a Educação?
tenho conhecimento de pequenos prémios, mais de reconforto do que de reconhecimento, mais de incentivo do que de divulgação, mesmo no nosso país;
será que não faz falta um prémio da Educação?

coisas

ele há coisas neste meu país incrustado à beira mar que são difíceis de percepcionar, de entender, de perceber; talvez o defeito seja meu e pronto;
se compreendo, numa primeira fase da governação, a necessidade de se ultrapassar o ónus do diálogo a que os governos de António Guterres ficaram agarrados, já numa segunda fase, esta em que se entra em contagem decrescente para as eleições, torna-se-me difícil de entender, de perceber algumas atitudes de arrogância, de pequenas prepotências, de devaneios travestidos de democráticos;
será que há gente que confunde, no meu PS, maioria absoluta com poder absoluto? por onde pára a capacidade argumentativa, o despudor de enfrentar a crítica com outras críticas, com outras ideias, com outros argumentos? por onde param os fazedores de opinião que criem alternativas de ideias e de argumentos aos comentários que se fazem à acção política e governativa? será que, como eu, estão espantados, incrédulos, ignorantes? silenciados?
se são entendíveis, até certo ponto, um conjunto de medidas designadas de reforma, não deveriam ser também compreensíveis a presença e a argumentação de políticos e actores governativos na sua afirmação, na sua defesa, na sua negociação?
ou será que já há uns quantos a pensarem que isto são favas contadas e pouco basta fazer (por desconsideração do povinho)?
ele há coisas...

segunda-feira, outubro 8

conversas

há muito que defendo que as escolas são, em muitos dos concelhos nacionais, um autêntico alfobre de quadros e de massa cinzenta; paralelamente aos centros de saúde deverão existir poucas, muito poucas instituições por esses concelhos fora que tenham tantos quadros por metro quadrado como as escolas;
mas sempre muito mal aproveitados, sempre muito virados para a sua simples e mais directa função, como a de leccionar, como a de ocupar as criancinhas;
se é certo que santos da casa nunca fizeram milagres (gostamos muito que outros, de fora, venham dizer aquilo que um ou outro na nossa casa diz há muito) é também certo que as qualificações dos docentes se tem acentuado significativamente nos últimos anos;
vai daí e surgiu a ideia de se trocarem ideias, conversas sobre as coisas mais variadas, utilizando a prata da casa; vamos ver como corre;
mas, na minha escola, há mestres em ciências, em administração educacional/escolar, em didácticas, em tecnologias educativas e nada melhor do que trocar ideias, racionalizar práticas, trocar experiências, partilhar ansiedades e angústias sobre a nossa profissão;
é um desafio que vamos experimentar, conversas em redor da escola, com a prata da casa; não será, certamente, para muitos, mas faço votos que bons;

prova

no meio dos meus afazeres profissionais, entre o horário zero e as solicitações pelas quais acabo de ser alvo, sou a prova provada (sic) que as escolas precisam de gente docente sem horário, para apoios noutras coisas e acções;
apesar de entrar em horário zero, isto é, sem componente lectivo, acabo, bem vistas as coisas, por ter uma carga horária muito superior a um docente do meu escalão e da minha categoria;
neste momento e de modo directo, dou apoio ao primeiro ciclo (uma experiência que, para já, está a ser altamente gratificante), cumpro horário e funções na biblioteca onde elaboro (em colaboração, é certo) a newsletter da dita, coordeno projectos de 2º e 3º ciclos, dinamizo o jornal escolar, colaboro com o gabinete dos apoios educativos e ainda respondo a solicitações pontuais do conselho executivo (seja em regime de substituição, seja em regime de apoio ou colaboração);
decorre daqui que as escolas estão preparadas para as aulas, mas de momento, as suas solicitações vão muito para além disso e não estão preparadas para o efeito;
caso não se olhasse apenas e simplesmente àquela educação contábil, onde o que conta são os números, seria perfeitamente possível as escolas organizarem-se para dar uma outra resposta às solicitações e exigências, quer da comunidade, quer das próprias políticas educativas - de sucesso, de organização, de estrutura e apoio, de complementos educativos, entre muitas outras;
afinal, acabo por ser a prova que as escolas têm condições, se as deixarem, para se organizarem de um outro modo;

da ilusão

no âmbito do meu projecto de investigação, tenho entrevistado professores sobre as suas considerações relativamente às alterações do sistema educativo;
tenho procurado aqueles docentes que, por uma ou outra razão, há mais tempo estão na escola; e tenho tido a felicidade de referenciar elementos que ali estão desde os anos 70;
nas suas considerações sobre as modificações do sistema, há uma ideia que atravessa, de modo mais ou menos expresso, os diferentes docentes, a de desilusão; logo após o 25 de Abril de 1974 todos pensavam mudar o mundo, o sistema, trabalhar com e para a comunidade, formar outro tipo de cidadão, outras mentalidades, outras lógicas;
passado o tempo o que encontro situa-se entre a conformidade (funcional) e a resignação do fim das ilusões;
e isto é grave, pois a profissão de professor não vive sem ilusões;

domingo, outubro 7

e exprimo-me

desafiam-me para comentar a transferência de um serviço para Beja;
nada mais triste quando a análise social e institucional é feita em contabilidade de mercearia, de um deve e de um haver, de uma perda e de ganhos;
lá ficam uns todos contentes por que retiraram algum do protagonismos aos de sempre; lá ficam os de sempre, entalados entre uns e outros; lá ficam outros a contabilizar o que perderam;
esta é uma das razões pelas quais afirmo que o Alentejo está sem rei nem roque; há serviços para todos, há espaços para todos; saibam os actores regionais entenderem-se (coisa que não tem sido possível nem fácil) e o Alentejo ganharia mais do que simples contas de aritmética entre quem perde e quem ganha;
olhe-se o centro, olhe-se o Norte, para percebermos como tem sido feita a gestão da coisa pública para perceber que quem manda é quem lá está, que as imposições não se toleram, negoceiam-se, que entre 6/7 distritos (caso da zona centro) quem tem perdido, nesta legislatura, tem sido o Alentejo;

sexta-feira, outubro 5

do professor

hoje é dia do professor;
as cerimónias da República tiveram a particularidade de associar duas comemorações que, cada qual a seu modo e a seu tempo, marcam gerações, provocam revoluções, conduzem a alterações;
a República mudou o país para que o país pudesse continuar (quase) na mesma; a educação, a acção dos professores forma gentes e mudam ideias, constróem pessoas e definem rumos de um país para que, progressiva e muito lentamente tudo mude, tudo se transfigure;
a escola e consequentemente os professores, sofrem dos males do crescimento, da massificação, da democratização; todos julgam e consideram oportuno um qualquer juízo de valor, uma qualquer opinião, um qualquer comentário sobre esta acção, sobre esta profissão; ou por que se simpatiza com o professor, ou por que a sua acção foi assim ou cozido, há sempre uma qualquer razão; além do mais (quase) todos por lá passámos e nos julgamos e consideramos conhecedores do mundo, da coisa educativa;
é uma profissão que se assume em diferentes vertentes, desde as de vocação (qual carreira eclesiástica), às mais instrumentais (é para ensinar a aprender a ler, escrever e contar), ou mais tecnocráticas (preparar para o mundo do trabalho) há de tudo um pouco;
mas o maior encanto desta profissão é ver, é sentir as pessoas a crescerem, a afirmarem-se na sua autonomia, na defesa das suas ideias e do seu pensamento;
por que é um confronto diário, sempre inesperado e surpreendente, quem gosta gosta mesmo daquilo que faz, das correrias nos corredores, dos gritos dos jovens, dos argumentos impertinentes, da troca de ideias afirmativas de todas as certezas, da permanente negociação, do permanente confronto;
por um lado, é pena a coincidência do dia do professor com a República, permitira um outro destaque a uma profissão tão vilipendiada; por outro, é uma sorte esta associação, por que de revoluções se trata;

quinta-feira, outubro 4

sangria

um outro comentário que apreciei, volto a repetir, ainda que não tenham sido essas as intenções, refere-se à região e à sua história política e social;
se há coisas onde posso dizer que conheço, ainda que minimamente (ao contrário do comentário), é a história política e social desta minha região;
a minha (de)formação inicial (em História) deixa um lastro significativo da qual não posso nem me quero separar, vai daí as leituras, o conhecimento, a informação e a curiosidade têm determinado muito daquilo que digo e escrevo sobre esta minha região;
ao contrário do comentário, re-afirmo que a história tem sérias implicações no devir político e social da região;
sempre fomos muito subservientes; de tal modo que, para evitar o seu sentimento negativo, isto é, de lutarmos e nos insurgirmos contra a situação, simplesmente saímos daqui; ou por opção, à procura de melhores condições de vida ou por imposição, política e social - é certo que esta predominou em determinado período da nossa história, entre os anos 50 e 70 do século passado;
a questão que hoje se nos coloca não é essa, antes pelo contrário; é a capacidade de atrairmos quem de cá saiu; e esta passa por uma ideia de qual o papel da região no contexto nacional;
se é certo que pelo predomínio que o PCP tem tido tem sido um obstáculo a uma afirmação social e política regional, também é certo que a ausência de ideias dos lideres socialistas regionais (Beja, Évora e Portalegre) tem sido um outro impedimento à afirmação regional; o degladiar de reivindicações, a luta fréticida de pelouros, a negociação sempre periclitante dos pequenos poderes têm determinado um claro e assumido desequilibrio entre os três distritos;
o facto de cada um deles ter à frente, partidariamente, elementos carentes de uma formação cívica e social que permita ultrapassar os pequenos ditames circunstanciais tem ditado o resto;
o Alentejo é hoje uma região sem rei nem roque, sem orientação e sem ideias, sem papel nem protagonismo, sem actores próprios nem vontade própria;
e isto é, no meu entender, o mais grave que se coloca a esta região;
não apenas pelos equilíbrios que o PCP procura estabelecer em função dos seus interesses, mas do próprio PS (na qual me reconheço) enleado em interesses mais pessoais e fulanizados que regionais e colectivos;
o PSD pouco tem contado e, pelo que nos é dado ver, pouco contará nesta afirmação;
o que nos resta? quem sobra desta sangria imposta e forçada? que papel queremos nós Alentejanos assumir? queremos ser, como sempre, mandados ou queremos mandar no nosso devir?
há elementos, pessoas, actores e protagonistas que se esquecem desta mensagem ou que, simplesmente, estão demasiadamente embrenhados na coisa política e se esquecem dos pequenos (mas determinantes) pormenores;

a construção do aluno

começo pela construção do aluno;
o comentário deixado é de todo em todo pertinente, ainda que possa não ter sido essa a intenção nem o objectivo;
ao tratar a questão da disciplina e não a da indisciplina na escola, vou exactamente à procura dessa dimensão da construção não apenas do aluno mas do próprio cidadão;
se é certo que o Estado Novo procurou e inculcou uma determinada ideia de aluno e de cidadão, a democracia não lhe ficou isenta e tem procurado, de acordo com os seus objectivos e as finalidades que se lhe encontram inerentes, definir um dada ideia de cidadão; os discursos em redor da autonomia das escolas, do sucesso educativo ou simplesmente do papel da escola a tempo inteiro ou do tal plano tecnológico, são disso exemplo e consideram a escola enquanto elemento instrumental ou funcional na acção discursiva - e política;
a questão que se coloca é a de que a uma ideia de escola corresponde, inevitável e incontornavelmente, uma ideia de sociedade e, por seu intermédio, uma ideia de qual a posição, a atitude e os valores que o aluno, enquanto futuro cidadão, deve veicular, para o qual deve estar preparado;
o Estado Novo teve a particularidade de preparar o cidadão como se não precisasse da norma, levando à própria construção interna da norma, enquanto preceito individual, natural e não enquanto imposição; é por isso que muitas dessas normas ainda hoje vigoram, quase que subliminarmente - naturais, normais;
ora a ideia que procuro tratar passa exactamente pela ideia de cidadão que a escola, por intermédio de uma dada ideia de disciplina escolar, tem veiculado enquanto imagem do cidadão, da pessoa, da democracia; nesta construção cruzam-se saberes (sociais, políticos, educativos, médicos, entres outros) que acabam por ter sérias implicações nos currícula, nos instrumentos de regulação dos comportamentos individuais;
é esta construção do aluno, enquanto futuro cidadão, que, apesar de poder soar muito a Estado Novo (e aqui o comentário tem toda a pertinência) faz sentido perceber como tem influenciado as políticas educativas e definido o papel da escola e da acção docente neste contexto;
obrigado pelo comentário;

comentários

há dois comentários deixados em ideias atrás que, apesar de visarem outros objectivos, considero de todo em todo pertinentes na ideia que deixam e, essencialmente, naquilo que lhes fica implicito;
apesar de não comentar comentários anónimos, não resisto a aprofundar a ideia, ou as ideias, que são trocadas;
sempre é uma forma de enriquecer a minha pobre, triste e errática escrita;

quarta-feira, outubro 3

do acessório

das reuniões que tenho tido na escola, e têm sido muitas, destaco a perda de tempo que se efectua a falar daquilo que considero como acessório;
em reuniões com três ou quatro pontos de ordem de trabalho, onde o primeiro é informações e o último outros assuntos, gastam-se horas; no meio, naquilo que seria efectivamente o cerne da questão o core da reunião, passa-se de fugida;
as conversas cruzam-se em enredos de desvios de atenção, de inércias de indiferença perante o que se discute;
é uma diferença que sinto, daquilo que designo como economia de uma reunião, tentar perceber quanto tempo se despende com cada um dos assuntos; um conselho pedagógico que passa três horas a trocar ideias administrativas e meia hora a trata de assuntos marcadamente pedagógicos; uma reunião de departamento, que passa duas horas a tratar da correspondência que chegou e pouco menos de 15 minutos a falar de articulação curricular ou de modelos de avaliação;
os trejeitos de quem conduz as reuniões enformam da função que exercem, são muito professorais, exemplificativos, procuram descrever, por vezes minuciosamente, determinados pontos para os quais (pretensão minha) seriam suficientes duas ou três palavras (para bom entendedor...);
as imposições normativas e regulamentares que são impostas às escolas e ao trabalho docente carecem ainda que tempo e de outros modus de organização para que se possa rentabilizar o trabalho dos professores, que a maioria designa como administrativo por que pretensamente se desvia da sala de aula;
são coisas do acessório...

balanço

ao fim de uma semana e de ter percorrido todas as turmas de 4º ano no trabalho que com elas desenvolvo será ainda prematuro definir um balanço, mas há ideias que se destacam;
os primeiros momentos foram péssimos; o meu hábito, o ritmo e a dinâmica de grupos estava muito (ou totalmente) orientado para a relação com alunos de 3º ciclo, o confronto com alunos de 1º ciclo implicou a necessidade de repensar a minha própria dinâmica de grupos, redefinir estratégias e metodologias;
é uma descoberta, esta a que faço com turmas de 1º ciclo;
passado o primeiro impacto, corrigidas as orientações e as coisas até não têm corrido mal; gratificante do ponto de vista dos afectos, mais dependentes do que a pretensa frieza que os mais velhos procuram incutir, mediante uma pretensa relação mais distante, mais formal;
mas há ritmos manifestamente diferentes entre ciclos; e estou a aprender bastante [incluindo a escrever];

périplos


procuro-me concentrar, focalizar na escrita que tenho de desenvolver, mas, de quando em vez, efectuo desvios, dou por mim a cirandar de um lado para o outro;
ele é mais um artigo, um apontamento, uma referência, ele são tantas as coisas que me desviam que está difícil dar o pontapé de saída para a escrita obrigatória; talvez também por carência de mais leituras, do reforço das ideias;
hoje, a partir do Terrear, foi mais um apontamento sobre (in)disciplina (abre em pdf); interessante, mas não inédito, na utilização da teoria de B. Bernstein; reforça-se a ideia que a normalidade não é comum a todos, o que é normal para uns num momento, pode não o ser num outro momento, nem para outros no mesmo momento; as situações de indisciplina variam em função de circunstâncias, contextos, momentos, sensações, relações, entre muita outra coisa; a própria definição apontada é ainda muito funcionalista, isto é, aponta para as funções definidas por uma relação;
vai daí e a minha proposta é a de estudar a disciplina na escola, mais difícil de definir e de delimitar, mas mais interessante sob o ponto de vista da construção do aluno e da pessoa e das relações estabelecidas em contexto educativo;

segunda-feira, outubro 1

professores e desemprego

numa altura em que às escolas é solicitada a ocupação dos tempos livres dos alunos, em que aos professores crescem as solicitações e as exigências (de acompanhamento, de apoio, de organização, de extensão de funções) é caricato darmos com estas notícias;
as escolas continuam organizadas (por força das orientações de política educativa e por inércia docente) como há trinta ou mais anos; as escolas são espaços de aula e pouco mais;
quando se exige e determina que o aluno não seja retido, que os professores planifiquem, organizem, estruturem apoios e acções, quando se apela a uma maior relação escola-meio porque não criar condições para que outros quadros (mesmo que docentes) possam apoiar a escola? servir de elementos de ligação turma-família-meio? estruturar acções extra-curriculares? definir outros campos de acção educativa? o cruzamento entre educação formal e educação não formal? estruturar os apoios educativos, sociais e curriculares?
apelar a que sejam sempre os mesmos a fazer mais é não apenas não perceber o que é ser professor, como é ter uma ideia escassa, curta e restrita da escola e da educação;
a "educação contábil" tem de ir não apenas à eficácia da acção escolar mas à organização do sistema, conferindo às escolas a possibilidade de uma outra organização;
se assim fosse, provavelmente o sistema custaria mais ao erário público, mas os proveitos seriam substancialmente maiores e existiram menos professores desempregados;
são opções de política educativa; são opções nacionais;