quarta-feira, maio 25

Mais conversa

Estou na escola à espera de mais conversa. No âmbito de uma iniciativa organizada pelo departamento a que pertenço, mais umas conversas hoje sobre tecnologias educativas e o trabalho dos professores. Mas uma oportunidade para perceber se as conversas são como as cerejas ou se são organizadas para o umbigo.
A ver vamos de conversa.

quase

Nesta altura, uma qualquer sala de professores, peço desculpa da generalização, é percorrida por um claro e objectivo sentimento do quase, que está quase, que falta pouco para que termine. Alguns é uma saturação, uma ângustia, uma trabalheira (como diria um amigo) para o qual falta pouco para terminar.
Para outros é apenas cansaço, saturação (de aulas, de alunos, de viagens, de dias desconfortáveis).
Para para outros ainda é apenas a aproximação do final de mais um ano lectivo, de mais um período, de mais uma marca neste evoluir.
A minha sala de professores, e é desta que eu falo, é marcada por este sentimento de quase, que está quase, que falta pouco.
Uns sopram, outros revelam muita da sua saturação, há níveis de impaciência, intolerância claramente (digo eu) marcados por esta sensação do quase.
Como há a clara e assumida revelação daqueles outros que estão aqui como podiam estar noutro qualquer lado, que gostam tanto da escola, das aulas e dos alunos como, certamente, gostariam de estar a encher chouriço, ou à sombra do ar condicionado de uma qualquer repartição pública.
é a sensação do quase, que está quase. Mas ainda não está.

terça-feira, maio 24

este rigor

Não quero cair nem em generalizações nem em abrangências ou que não conheço ou que não domino, mas que existe um excessivo rigor, quase ao nível do preciosismo, no número do buraco público, estes 6.38%, disso não tenho dúvidas, nem pinga de incerteza.
Como escreveu um amigo (a circular por mail) não são os seis por cento que me incomodam, não são as décimas que chateiam, o que me aborrece mesmo é este rigor, quase tão fingido como as contas públicas, do valor centésimal de 0.08%.
Fosse tudo assim, tão rigoroso e pormenorizado como este valor centésimal e não teríamos, quase que garantidamente, o buraco que temos. Nem os governantes que temos tido.

do que tem de ser

As conversas na sala de professores, são como as cerejas, vêem umas atrás das outras. Fala-se disto e daquilo, do que gostamos e do que pensamos.
Hoje, provavelmente de forma invariável a muitos e muitos recantos deste país, fala-se do déficite, do deve e do haver das contas públicas e, muito mais importantes, dos mesmos, sempre os mesmos que têm de pagar, que não podem, não conseguem fugir, nós mesmos, professores, funcionários públicos.
Engraçado como neste momento existe uma clara e directa associação - professor/funcionário público.

segunda-feira, maio 23

do nada

É impressionante o momento em que ficamos sem nada para dizer.
Não é possível.
Tanta coisa que acontece, mesmo aquilo que não acontece na escola pode ser notícia, oportunidade para cuscar, momento para blogar.
Mas é verdade. Sinto que pouco ou nada tenho para dizer, menos para escrever.
Por isso calo-me, não escrevo, ausento-me daqui e aqui fico a olhar, a ver quem passa.
Não estou em estágio, mas podia (será que devia) estar. Não estou por aí além atarefado, geralmente só não tenho tempo para o que não quero ou não me interessa. Mas apetece-me não ter tempo, talvez apenas não ter interesse.
Vazio. Pleno, total, sentido, o vazio. O nada.
Tão bom que é.

quinta-feira, maio 19

mais um

Hoje é mais um colega que faz um aninho.

transitando Posted by Hello
Um colega que, nas suas palavras, anda em trânsito pela vida, por este mundo, por este país...
Afirmou-se devagar, como convém a todos aqueles que fazem um percurso de fundo e que procuram ir fundo nas pequenas (e nas grandes) coisas da vida.
Que por cá continues, é o que conta. Parabéns e obrigado.

quarta-feira, maio 18

conversas

As conversas com História lá decorreram na serena normalidade da indiferença da escola. Há muito que reconheço que santos da casa não fazem (nunca fizeram) milagres. As expectativas, por isso mesmo, não eram elevadas no respeitante à participação.
No ano transacto, com a participação de alguns ilustres convidados, poucos mais eramos que este ano, quase tantos de um lado, como do outro.
Mas tenho que reconhecer que, depois de um início tímido, algo receoso ou envergonhado, foi difícil dar por terminada a conversa [afinal, são como as cerejas].
Há sempre tanto para falar, há sempre tanto para conversarmos e tão pouco o tempo disponível, as vontades e as oportunidades que, quando apanhadas, são esprimidas até...
Destaco uma ideia que, de algum modo me surpreendeu, o reconhecimento que o que falta mudar são as práticas docentes, o método pedagógico que permanece algo enclausurado numa tradição que teima em persistir depois de tudo o mais ter desaparecido.
é óbvio não é?! pois, para mim não é assim tão óbvio este reconhecimento explícito.
Para a semana há mais, sobre as tecnologias educativas no trabalho dos professores.

aniversário


Este senhor fez ontem dois anos de escritas de palavras à solta.
É um dos sítios mais antigos e mais veneráveis que reconheço. Nunca agradeci nem o link nem as visitas.
Bem hajas por muito e mais tempo.
Posted by Hello

terça-feira, maio 17

Vazio

As coisas, aparentemente, estão assim, vazias, ausentes, disponíveis.

Posted by Hello
Há bloguistas desaparecidos nos confins dos dias, da escrita.
Há ausências, entre o forçado e o desmotivado. Há, nota-se, o cansaço, que faz com que a estrada fique assim, vazia.
Espero que seja apenas um entretém de queimas, temporário, passageiro e que o tráfego aumente, se recuperem ânimos e vontades, escritas e emoções.

segunda-feira, maio 16

Equilíbrio

Para estar num lado, não consigo estar no outro.
Uma questão de simples equilíbrio e de gestão de espaços, tempo e interesses.
equilibrio Posted by Hello
A imagem retirei-a daqui, e serve apenas para ilustrar uma ideia.
Neste momento analiso portefólios, discuto e debato ideias com alunos, troco opiniões com pais, encarregados de educação e colegas de conselho de turma. Estruturo o princípio do fim. Prescruta-se aquilo que é possível fazer e as apostas que ainda faltam.
Para além disso, preparo umas Conversas com História, segunda edição, a iniciar já na próxima 4ª feira, este ano sobre a construção local da educação - políticas educativas, tecnologias e práticas pedagógicas.
Equilíbrio instável.

sábado, maio 14

links

A não perder para que se possa conhecer um pouco mais e um pouco melhor.

quinta-feira, maio 12

Blogs

A partir do Aviz, um texto imperdível sobre blogues, veio mesmo a calhar.

textos para coisa nenhuma

A partir desta imagem, de Nico Vassilakis, um pensamento, um texto para coisa nenhuma.

textos para coisa nenhuma Posted by Hello
Às páginas tantas, depois de tantas e tantas palavras, dos textos que produzimos e que nos produzem, que nos reproduzem quase que me sinto preso das minhas ideias, das palavras que troco, do pensamento que o suporta.
Não percebo, quando escrevo, se é a palavra que se solta se sou eu que quero ficar preso a ela.

Olhares

Aquilo que vemos quando para trás somos capazes de olhar.

moment1 Posted by Hello óleo sobre tela
Um conjunto de quadros que considero deveras interessantes

terça-feira, maio 10

estórias de professor

Não resisti, a partir deste texto, a partilhar um texto e um professor, um texto há muito guardado.

Não recordo se José Sena apareceu no primeiro se no segundo semestre do primeiro ano do meu curso. Sei que apareceu e nunca mais desapareceu, nunca mais se ausentou da minha memória de gente.
Leccionava um cadeirão (economia) difícil para elementos que pouco tinham apreciado da matemática, este homem tinha como principal características, que interiorizei, procurar simplificar o que é aparentemente difícil, brincar com coisas aparentemente sérias. Descobri, progressivamente, que se levam melhor, fazem-se melhor, custam menos.
O cadeirão foi feito, não apenas por mim mas pela generalidade dos alunos, à primeira, proeza assinalável num curso onde a média acontecia apenas à terceira. Mas ficou a relação, ficou uma amizade, tive oportunidade de lhe dizer que foi uma das pessoas que mais me marcou enquanto professor, enquanto profissional do ensino e enquanto pessoa.
Aprendi, com este homem, a organizar a vida, a fazer dela um prazer, a descobrir que as amizades valem sempre a pena, a reconhecer no reconhecimento do olhar, no brilhozinho que se pode notar nos olhos de alguém que o mundo é pequeno quando gostamos do que fazemos. Aprendi que só não temos tempo para aquilo que não queremos ou perante o qual não temos interesse.
José Sena era docente na Universidade de Évora, vereador na câmara municipal da sua terra, director do jornal local, colaborava em revistas e projectos de investigação da sua área, desenvolvia estudos pós graduados em Lisboa, mostrava interesse pela informática que então despontava, casado e pai ainda lhe sobrava tempo para degostar a vida nas tascas do Ti Zé D’Alter, no Xa Negra ou no Isaías.
Um dia perguntei-lhe como conseguia fazer tudo isso, respondeu-me que quanto menos tem para fazer, menos faz. Gosta de estar ocupado, gostava da vida como ela era e não como devia ser.
Aprendi com ele a gostar de me meter nas coisas, de fazer pela vida, de organizar o meu mundo, de me envolver com as pessoas, de fazer coisas que transmitam, de uma ou de outra maneira, de um ou de outro modo, gosto por aquilo que se faz, por aquilo que fazemos.
Morreu já eu era docente e ele presidente da câmara. Não fui ao funeral, preferi recordá-lo em vida, professor, de ponteiro na mão, virado para o tecto a perguntar, entre o sarcástico e o irónico, o ofendido e o exigente se a bancada da oposição, aquela que se sentava no fundo da sala a ver se passava despercebida, se importava de colaborar no desenvolvimento da economia, que não tivéssemos dúvidas que, por incrível que nos pudesse parecer, estávamos numa aula e numa aula de economia em particular.
Frases, atitudes, comportamentos e valores que me ficaram e das quais me apropriei como se fossem minhas. Memórias de um homem, a única referência profissional que afirmo reconhecer e que conheci em vida.
Foi com ele que aprendi, ao consciencializar esta relação, que o acto pedagógico é sempre um acto relacional, que apelam à interiorização, à consciencialização pessoal de situações, à superação das dúvidas que impelem ao avanço, à aquisição de saberes ou competências. Sendo um acto relacional, não pode ser destituído de afectos, sentimentos, emoções que orientam, conduzem e enformam essa relação.
Ainda hoje é este um dos meus princípios de orientação e apoio enquanto profissional. E tantas vezes sinto saudades do Prof. Sena.

acutilância

De quando em vez andamos tão entretidos nesta moda tão portuguesa de carpir mágoas, julgar os outros, encontrar culpados e desenhar agruras, dissecar cadáveres sem saber porquê ou para quê, e, de repente, felizmente, há quem nos obrigue a por os pés no chão, como que nos dá um sopapo para derpertarmos para a realidade.
O Miguel destaca um texto fundamental para que nós, nesta ilha chamada escola básica e secundária, tenhamos a noção que não somos assim tão bestas, nem tão feios, nem tão maus quantos nos querem fazer crer e nos pintam.
Há muito para fazer, é verdade, muito para formar e mostrar que existem outras alternativas, outros modos, outros meios, outras possibilidades. Mas também há coisas boas, ideias que se desenvolvem, projectos que se implementam, acções que se concretizam.
Há coisas boas nesta ilha.
Saibamos não as matar, pelo menos.

opinião

Hoje de manhã, enquanto vinha para a escola, ouvia a rádio, a Antena 1.
A propósito da proposta do presidente da República sobre a avaliação externa das universidades, o locutor pergunta ao presidente do conselho de reitores, Adriano Pimpão, a sua ideia sobre o ensino básico e secundário. Este senhor começa por dizer que não é a sua especialidade, mas que, fruto das relações que a sua universidade tem com esses níveis de ensino, há uma coisa a fazer desde já, aumentar os níveis de exigência dos alunos e das escolas, e não é ele especialista.
E diz que não é necessária a avaliação externa às universidades portuguesas. Porquê uns e não outros, porquê aumentar os níveis de exigência de um lado e manter o triste quotidiano do outro? Será que as Universidades - e não só - não terão qualquer tipo de responsabilidade nesta situação?
Será que estou numa ilha?

segunda-feira, maio 9

culpas

Ainda sobre as conversas na sala de professores, relativas ao comportamento dos alunos, é quase que unânime a culpabilização do aluno. A sua educação, a sua formação, a família, o ciclo de formação anterior áquele em que se encontra.
Há quem defenda que os conflitos apenas dependem de uma efectiva gestão da situação. E quem defenda que depende do bom senso do professor, da sua capacidade de lidar com a situação. Há quem defenda que passa pela dinâmica criada na sala de aula.
Culpar o aluno é a situação mais fácil, o modo de desresponsabilização mais directo.
Será que há necessidade de procurar culpados? Será que há um culpado?

orientações

Parece que existem orientações quanto aos actores políticos regionais, no âmbito da educação. Parece, segundo ouvi dizer, que há já prazos, datas para a tomada de posse - obviamente que nomes.
Entre o comentário e o discurso (aquela típica retórica educativa) duas ideias.
Não é necessário inventar a roda nem voltar a dominar o fogo, que a política regional sirva para apoiar as escolas, incentivar, discriminar aquilo que é feito, promover o que é bem feito, apoiar quem precisa, esclarecer e orientar quem solicita. Ouvir, escutar e sentir as escolas, o seu trabalho, as suas dinâmicas, os seus sentimentos.
Segundo ideia, promover um efectivo combate ao abandono, ao absentismo, à indiferença que graça nas escolas, quer dos docentes, quer dos alunos.
De resto nós cá continuamos, como se nada fosse. Minguém mais existisse.

quotidiano

Num dos cantos desta sala de professores, discutem-se temas recorrentes, a disciplina, o comportamento dos alunos. Entre um e outro argumento esgrimido, quer de um lado, do professor, quer de outro lado, em favor do aluno, nota-se, sobressai a autoridade (exercício, poder, sentidos e destinos) do professor.
Há quem, entre o assumido e o consternado, diga que não lhe ensinaram como agir nestas situações, não tem preparação para lidar com casos como este.
E existirá alguém preparado para isto?