sábado, maio 7

numa fila

Estava eu na fila do supermercado, como muitos outros. Olho em volto, puxo de uma revista que folheio aleatoriamente, à procura de imagens, de instantes. Escuto uma ou outra das conversas que ao lado ou atrás de mim ocorrem, como pretexto para segurar o tempo de espera.
Há uma, de repente, que desperta em mim algo entre curiosidade e estupfacção. Uma senhora pergunta a outra o porquê de não fazer a festa de anos do filho em casa, quando vive numa quinta e tem espaço de sobra.
A resposta, tu sabes lá, as crianças são umas autênticas feras, não respeitam nada nem ninguém, o ano passado viraram-me a casa do avesso, estragaram brinquedos ao rapaz. Não estou para isso.
Quem está? a Escola?
Quem remedeia? a escola?

quinta-feira, maio 5

citação

... de uma maneira geral, direi que as escolas ainda não compreenderam que, também elas, têm de se repensar. Permanecem na atitude negativa de se sentirem desfasadas, mal compreendidas e mal-amadas, ultrapassadas, talvez inúteis. Quedam-se à espera que alguém as venha transformar. E não perceberam ainda que só elas se podem transformar a si próprias. Por dentro. Com as pessoas que as constituem: professores, alunos, funcionários. Em interacção com a comunidade circundante...
I. Aalarcão, 2003. P.36.
sublinhado da autora.

da indiferença

Os comentários, pertinentes e estimulantes, ao meu texto sobre a diferença, ressaltam dois ou três aspectos que considero impertinente discutir. (impertinente porque não vou à procura de uma fundamentação teórico-metodológica, arregimentadora de ideias e conceitos; mas é a partir deste enquadramento assente, fundamentalmente em textos e ideias veiculadas por Perrenoud, Lima, Alarcão, Fullen, Hargraeves, Costa, Sarmento, Formosinho, entre outros, que construo uma opinião.)
Primeiro, que a escola não se esgota (nem deve ser apenas) um conjunto de aulas, independentemente das metodologias adoptadas. A escola é e deve ir muito para além disso e vai, de modo efectivo muito para além das aulas, daí todos os espaços que se criam nas escolas (desde os clubes, a acções organizadas ou pontuais). A escola deverá, em meu entendimento, ter a organização necessária e suficiente para que todas as actividades desenvolvidas dentro ou pela escola possam ser integradas em percursos de formação, experiência e reflexão crítica por parte dos seus actores. Um dos problemas é delimitarmos a escola ao espaço sala-de-aula, ao dar aulas e procurarmos todas as soluções, propostas ou ideias para resolver os problemas que surgem dentro da sala de aula. O que acontece, por vezes e em certas situações, é a resolução ou o apoio à resolução de um problema estar fora da sala-de-aula.
Segundo aspecto, a escola não está fora, nem ao lado, nem, muito menos, acima da sociedade. Como não estarão as pessoas que a constituem, lhe dão sentido e a organizam. Vai daí e a escola, na sua generalidade, mais não faz que reproduzir a ideia que a sociedade tem da escola e a escola tem de sociedade. A escola não será essa caixa negra por onde entram pessoas, do qual pouco ou nada se sabe e saem cidadãos. Não. A escola é o que a sociedade permite e aponta que seja, tanto ideologicamente, como politicamente, na ditadura, como na democracia. O que a nossa escola não tem dito é capacidade, as condições e o apoio necessário para se pensar e para se pensar face à sociedade. Todo o pensamento sobre a escola decorre fora da escola, por observadores (estudiosos, investigadores, projectos ou que tais) que estão fora da escola e que a procuram para a pensar.
Tantos uma como outra das situações descritas - abertas ao contraditório - arregimentam, muita vezes, sentimentos de impotência e de incapacidade, de frustração ou de cansaço. Porque não conseguimos que as acções (extracurriculares ou extralectivas) concorram para a formação dos alunos, porque a escola não é diferente do contexto que a enforma e condiciona e, muita das vezes, determina. Daí a resposta da escola. Ou a sua ausência.
PS - concordo com o Paulo no sentimento de alguma regeição do termo pedagogia diferenciada. Mas também não vou, pelos menos para já e directamente, atrás do conceito intercultural ou de multiculturalidade. Considero que a adopção de metodologias respeitadoras e integradoras da diferença vão para além, primeiro, da pedagogia, depois da própria cultura, no que se refere à sua relação com a escola, entenda-se. Reformulam uma, alargam outra.
Onde ficamos? ainda não sei. Mas quero um dia dar uma resposta.

quarta-feira, maio 4

cenas do quotidiano educativo

Dirijo-me à secretaria da escola para entregar o necessário pedido de autorização para uma falta no final do mês.
A funcionária diz-me ò professor, ainda falta tanto, quando faltarem 5 ou 6 dias venha cá.
Ainda penso, inicialmente, que estaria a brincar comigo. Mas não, está a falar a sério. Quando repara na minha cara de espantado, ainda reafirme, já viu!?, se eu levasse as coisas com tanto tempo de antecedência para o presidente assinar, nem ele se lembraria das coisas.
Peço apenas para que não me desorganizem os dias, nem a vida, mas estes serviços administrativos são, efectivamente, um poço de surpresas.

da diferença

Na sequência de um texto do Miguel, o Paulo levanta uma questão que alguns colocam, outros subentendem e muitos olham para o lado de modo a fingir que não é com eles (entendam-se, os professores)
Pergunta o Paulo uma escola que deve dar as mesmas oportunidades a todos deve ser igual para todos (?).
Resposta directa - Não, pelo contrário tem, deve ser diferente. Isto é, deve disciminar (não confundir com descriminação) e diferenciar para que se possam aceder às mesmas oportuidades.
O que os estudos no campo da História da Educação revelam quase que inequivocamente (o evidente é um deles) é o facto de a escola, em vez de homogeneizar as oportunidades, acentua as diferenças de origem social (e, em algums países, cultural, de género ou raça).
No meu entender (que é feito meu) a escola terá de diferenciar para apoiar a construção da igualdade. Aí sim, não será tão grave o choque quanto aos princípios de organização e de defesa da democracia. E tem sido isto que a escola pública portuguesa não tem sabido fazer - diferenciar.
O resultado é tratar todos como iguais, que não somos, de igual modo, que não queremos, com os mesmos interesses, que é falso, e com idêntidos objectivos ou expectativas, que é ainda mais falso.
A consequência é o insucesso, o desinteresse, o alheamento, o absentismo, o abandono, a indiferença do aluno face à escola, a incapacidade do professor face aos seus próprios límites e desafios.
Para termos uma educação cada vez mais igual para todos, temos de ter uma escola cada vez mais diferente e diferenciadora, que respeite a diferença, que assuma a diferença entre os seus elementos.

do antigamente (2)

O Paulo respondeu a uma pequena (ou grande, o adjectivo é mais do outro que nosso) provocação, sobre eu ser do antigamente.
Disse na posta anterior que não o sou, nem em ideologia, nem em princípios, nem em orientações ou práticas, nem em saudosismos. Descobri que se referia a este último, à saudade que muitos nutrem por aquela que habitualmente designam como sua escola, ao modelo de que foram alvo e objecto, e não às anteriores referências - se bem que uma dificilmente se despegue das outras.
E tenho de destacar duas ideias que retiro do seu comentário. Por um lado, a profunda delicadeza e sensatez com que o faz. Procura no texto não ferir susceptibilidades como procura ultrapassar ou colmatar aquelas que deduz que tenha despertado com a minha resposta. É bonito de se ver e melhor de se ler. Obrigado.
Como segunda ideia aquela que a idade é incontornável e sou, ou tenho sido, movido por ela. Tenho que reconhecer que não estarei propriamente numa crise etária, num qualquer estadio existencial ou coisa que se pareça, mas tenho sentido (e gostado de sentir) o peso do passar dos anos. Estou a caminho dos 42 (em Outubro) com 16 de docência, dois filhos, vários cães, preste a mudar de casa (aquela que, em princípio, me levará até ao fim), sinto os meus pais a apagarem-se, a envelhecerem, sinto aqueles que sempre vi velhos, e olho para trás e vejo o caminho que percorri, com quem tive o privilégio, a sorte e a fortuna de o ter feito. Olho em frente e apetece-me fazer mais e mais, aprender outras coisas, conhecer outras pessoas e outras ideias. O confronto entre um e outro, numa pessoa de meia idade, não mata, mas faz mossa.
Lá isso faz.

terça-feira, maio 3

do antigamente

Foi com alguma surpresa que verifiquei as referências feitas pelo Paulo, ainda assim gratificantes pelo facto de fazer parte de uma lista daqueles que considera os melhores blogues, os seus favoritos.
Mas nunca me imaginei ser da escola de outros tempos, nem em ideologia, nem em princípios, nem em orientações ou práticas, nem em saudosismos.
É uma surpresa quando descobrimos aquilo que transmitimos aos outros, uma vez que não tenho o privilégio de conhecer o Paulo. Não sei se será efectivamente esta a ideia que transmito, que faço passar. Mas, pelo menos nas acontecencias do Paulo, é essa a ideia que deixo.
Que sou opinativo? Sem a mais pequena sombra de dúvida. Os blogues, em meu entender são um espaço de opinião, de construção cívica, de exercício daquilo que designo como democracia participativa. Além do mais a minha área de trabalho reservo-a para um outro lado, onde discorro, e procuro fundamentar ideias, princípios e teorias, como na posição que estou (usualmente designada de professor do batente) pouco mais posso acrescentar do que a minha opinião ou a minha ideia sobre a escola.
Os blogues não são, como alguns quiseram fazer querer e/ou outros procuram promover, uma extensão de revistas científicas, académicas ou de referência política ou social.
Mas gostei, quer de me ver incluído naquela sua lista (quem não gosta) como da frescura não usual que, diz, me caracteriza.
Ora toma lá frescura.

correcção

outra vez.
Antes de tempo, porque perspectivo algumas alterações a este meu canto, descobri que tinha acontecencias mal escrito, por indicação do seu dono. Já está corrigido, apesar de o ter feito pensando na minha alentejaneidade, acontecências fica próximo deste meu linguarejar, o que tornava, também sob esta perspectiva, agradável a entoação. Mas está feita a correcção de acordo com as orientações do proprietário. Afinal estes espaços (como os outros todos) são aquilo que dele fazemos.

perdidos e achados

Ontem escrevi, e perdi, uma posta onde agradecia a rectificação que me fizeram, quando troquei as Marias (de Fátima Bonifácio e Filomena Mónica) numa das postas anteriores. Agradeço a rectificação.
E, ao mesmo tempo procurava trocar ideias com o colega relativamente à questão que, oportunamente, levantou cquando afirma que temos Uma escola onde impera o facilitismo, a falta de exigência e de disciplina.
No programa em questão um elemento ressaltou quando se abordaram as questões do rigor, da autoridade, da disciplina, uma certa confusão, aliás e infelizmente comum, entre autoridade e poder, disciplina e exigência e rigor. Como foi algo evidente a associação que se teima em fazer que maiores níveis de disciplina, exigência e rigor determinam maiores níveis de sucesso e de aproveitamento. Assim muitos certamente optariam pela ditadura, garantia quase certa de níveis de sucesso de invejar a qualquer finlandes ou sul-coreano.
A grande questão que foi aflorada entre os elementos decorre de qual ideia de escola que prevalece, que se defende, que se implementa. Poderá ser uma escola de conhecimento ou orientada para valores, como poderá ser uma escola de competências. Mas seja ela qual for há resultados e há práticas profissionais que valorizam o rigor e a exigência, a disciplina e a determinação sem se abdicar de uma educação participativa e de uma escola inclusiva.
O que claramente e em meu entender falta na escola é uma ideia de escola. Para que serve, quem serve, o que serve, como se serve - se é que serve para alguma coisa.
Em todo o caso agradeço a chamada de atenção. Não respondi mais cedo apenas e somente por questões de perdidos e achados. Obrigado.

crescimento

De quando em vez ponho-me a arrumar os meus papeis, este ano com a particularidade de serem em portefólio (os meus e os dos alunos). Situação que me permite perspectivar a evolução, o empenho, a dedicação que coloco no seu desenvolvimento, naquilo que obtenho.
Entre o ontem e o hoje dois factores, no contexto desta arrumação, me ocorreram.
Um de pena de não ter há mais tempo optado por esta forma de trabalho. Ter-me-ia permitido hoje perspectivar a evolução daquilo que fiz, do que procurei fazer e ser, do desenvolvimento das acções que promovi. Perdi um pouco das minhas memórias, pelo menos físicas, uma vez que não tenho registos do que fiz (projectos, feiras, fóruns, conversas, entre muitas outras).
Por outro, permitiu-me perspectivar um sentimento agradável de uma quase que permanente e consntante evolução. Ao longo de todos estes anos em que sou docente procurei adaptar-me aos contextos, recolher e obter a informação que, numa dada situação, considerei necessária, procurei mais conhecimentos técnicos e teóricos que permitissem uma melhor (digo eu) prática profissional. Sinto que não parei.
É óptimo este sentimento de crescer.

segunda-feira, maio 2

desterrados

Provavelmente já terão ouvido (e, eventualmente, visto) alguns apontamentos sobre uma realidade recentemente afirmada, a dos professores desterrados.
Conjunto de docentes que, fruto da alteração das regras de concurso, regressaram às escolas de origem, onde são efectivos, mas que, por efeitos de não existência de destacamento, ficaram desterrados, longe de casa e das famílias.
No fim-de-semana que terminou realizou-se um encontro deste conjunto de elementos. De acordo com contas várias serão pouco mais de 3.500 docentes. Participaram neste encontro, menos de 40.
Elucidativo de um espírito, de uma vontade, de uma ideia colectiva que marca os professores. Não apenas estes. A sua generalidade.
Acho que estamos todos desterrados na nossa profissão. Entre o enclausurado e o desterrado, de qualquer modo ou de qualquer maneira, fora de um jogo profissional que é o nosso mas que deixamos que nos passe ao lado. Optamos, preferimos que nos digam como, subservientes, dependentes de um Estado centralizador e castrador de ideias.
Até quando?

Da opinião

Ontem à noite, nas outras conversas, de Maria João Avilez, na Sic Notícias, duas sumidades (Maria Filomena Mónica e Manuel Braga da Cruz) trocaram ideias e disseram cobras e lagartos da escola (básica e secundária), dos professores, da organização do sistema, etc.
Entre uma e outra das ideias trocadas, da conversa em tom de amena cavaqueira, sobressaiu-me uma frase de Maria Filomena Mónica, que não tolera opiniões.
Diz a senhora que muito se fala, muito se opina sem uma fundamentação, sem o conhecimento da realidade, dos argumentos utilizados.
Por um lado tenho de concordar. Todos temos opinião sobre a escola e sobre a educação. Muitas e muitas barbaridades se dizem e se escrevem sobre o que é a escola e a educação, sobre o trabalho dos professores e o rendimento dos alunos.
Mas também tenho de concordar que a senhora é uma dessas figuras que, por diferentes motivos e factores, lhe atribuiram um protagonismo que dificilmente poderá ser consolidado fora do ambiente marcadamente opiniativo.
Mas é uma opinião.

domingo, maio 1

do ambiente

Há tempos atrás tive oportunidade de trocar um conjunto de ideias com o Gustavo (rápido regresso, que sinto saudades) sobre a arquitectura interior das escolas, nomeadamente a relação, de proximidade ou de distanciamento, entre sala de professores e órgão e gestão, sala de professores versus sala de funcionários ou de alunos.
Hoje, a partir de um texto onde se procura destacar um ambiente escolar, tão simples quanto bonito, despertou-me a memória das escolas por onde tenho andado.
Quase todas assentes numa lógica que intermedeia entre o fabril (um ou vários blocos com salas de aula, por onde se dispersam professores e alunos, onde se organizam, de modo sequencial e formal as relações e as dinâmicas pedagógicas, que se distribuem, pretensamente sobre uma qualquer noção de equilíbrio, entre funções pedagógicas, administrativas e de apoio) e o militar (amplos espaços exteriores, entre o campo de jogos ou aproveitado para esse efeito e a parada militar, onde se alinham conjuntos, onde se distribuem grupos e grupinhos, onde se constroem sentimentos e relações de pertença ou de exclusão, de tolerância ou de nem por isso.
Esta lógica de organização procurou, a seu tempo, definir um conjunto de relações marcadas, essencialmente, pela separação, pela hierarquia, pela consideração que há grupos mais importantes que outros, não apenas do ponto de vista social, mas também disciplinar, daí umas salas serem amplas outras nem tanto, uma estarem viradas ou orientadas de acordo com critérios definidos outras nem tanto, ou pela própria arrumação (organização interna) da sala.
Isto para destacar um dado óbvio, mas nem sempre evidente, que a arquitectura condiciona as relações humanas, define um dado fluir dessas mesmas relações, estrutura a sua dinâmica e permite criar uma dinâmica política (escolar) e institucional (educativa) que enforma a cultura (e o clima) de uma qualquer organização.
Nada é mais óbvio e evidente que as escolas de 1º ciclo (as primárias do antigamente) desde o plano do centenário, aos P (p1, p2, p3 e, mais recentemente, o p5) para realçar esta lógica que também está presente nos restantes ciclos.
É por estas e por outras que surgem planos e projectos que visam alterar ou re-condicionar de modo diferente, espero que assente em pressupostos diferentes, estas lógicas. Este é também um outro desafio que condiciona as relações internas de uma escola, que determina uma dada dinâmica de trabalho, que promove um dado ambiente educativo que, por sua vez e de modo articulado com outros factores, permite criar uma outra apetência na e pela escola, pelo sucesso e pela participação de uns e de outros.
Por vezes querem-se alterar todas as estruturas, todas as ramificações que mais não são que consequência de lógicas de utilização e apropriação dos espaços, dos fluxos de circulação e de respiração que acontecem numa escola sem se tocar no cerne da questão.
Na generalidade das situações são acções, invariavelmente, condenadas ao fracasso. E não é por resistência, nem obstinação de quem quer que seja. Apenas condicionantes de um espaço.

sexta-feira, abril 29

ainda + conversa

No seio de toda esta conversa acabamos sempre por valorizar um ou outro dos pontos de vista, aqueles onde estamos, por onde nos envolvemos.
Mas, atenção à impertinência, não esquecer que isto de educação é uma pescadinha de rebinho na boca. Pegue-se-lhe por onde se pegue ele liga pontas, une fins.
O princípio é importante, o primeiro ciclo, mas a universidade, as instituições de formação de professores serão, neste contexto, determinantes para equacionar não um mas vários, diferentes modelos, possibilidades e dinâmicas de trabalho.
O que se vê é chegarem estagiários com um modelo pré-definido, pré-determinado de dar aulas, independentemente das realidades, dos contextos, das situações com que se depara. A formação inicial, apesar de existirem honrosas excepções, está assente na fábrica educativa. A formação continua vai ao encontro de alguns, escassos, interesses.
E o resto, e as outras possibilidades?

das conversas

Em face das conversas que a discussão em torno das medidas de apoio ao ensino da matemática têm sucistado, permitam-me acrescentar dois ou três aspectos que designo, assumidamente, de banalidades e lugares comuns.
Qualquer medida adoptada necessita de tempo de maturação, de gestação para que, de modo efectivo, prático e real, se façam sentir os seus efeitos, os impactos (tanto os desejados como, inevitavelmente, os nem por isso). Ora a escola e nomeadamente o tempo educativo não se coaduna com o tempo político, com a celeridade mediática que um tempo político e social pensa determinar.
Se, genérica e globalmente, vejo como boas as medidas adoptadas, não deixo de considerar que elas não são vistas em função das capacidades reflexivas e críticas nem dos professores nem das escolas (entendidas como um colectivo profissional e social). Bem pelo contrário. Vêm encontro a consideração dos professores como claros funcionários públicos que apenas fazem quando se lhes diz para fazer, como fazer e o que fazer. Como profissional do ensino tenho pena, como cidadão reconheço muita da verdade, como pai e encarregado de educação considero as medidas, para além de legitimas, escassas, pouco ambiciosas.
Terceira ideia, na minha sala de professores não oiço um comentário fundamentado, consistente ou, sequer, coerente de crítica ou de oposição. apenas e genericamente falando, lugares comuns, defesa de um profissionalismo atávico, minimalista e cerceador de uma qualquer autonomia profissional.
Finalmente, considero que há, em imensas escolas, práticas eficazes, caminhos alternativos, casos de sucesso, reflexão crítica e pensamento assertivo sobre o que se faz, a construção local da escola e da educação. Ideias, práticas, caminhos e alternativas que há que apoiar, valorizar, incentivar e partilhar.
A conclusão que posso fazer destes meus lugares comuns vai no sentido que falta formação à formação, faltam ideias a quem as devia ter (aos professores), falta imaginação, ousadia, capacidade de ultrapassar a banalidade dos dias, desligar de um quotidiano amorfo e enfrentar a construção diária, continuada e persistente da escola. Com o apoio dos colegas, com a conversa na escola, com uma organização diferente dos espaços e dos tempos lectivos, com a construção de objectivos, com a definição de elementos de avaliação, com a aferição de possibilidades, com o envolvimento e a participação daqueles que estão interessados na escola e pela escola. Aprender com os erros, nossos e alheios, saber retirar as necessárias e devidas ilacções dos caminhos trilhados, do feito, do construído.
Três ideias básicas - participação, construção local, avaliação.

quinta-feira, abril 28

obviamente

São, aparentemente, tão óbvias as medidas anunciadas (1 e 2) para a educação que dificilmente conseguem suscitar uma crítica de fundo, se pode descortinar uma fundamentação de resistência, colocar um obstáculo inoportuno.
Apenas numa qualquer sala de professores se conseguem ouvir comentários menos bons, perceber a dualidade de perspectivas. Ontem de manhã ainda prevaleciam os comentários sobre a bestialidade do aluno, hoje realçam-se as condições que não temos, as eternas condições que podem, de modo claro e directo, ser substituídas pelo seu sinónimo, desculpas.
Obviamente.

frases

uma frase que gostava de ter escrito:
... Eu sei que a escola que temos não é uma inevitabilidade. É um produto de mil e um preconceitos e representações que afagam o nosso ego e reificam o passado no nosso olhar...
Ademar Santos.

quarta-feira, abril 27

dicotomias

Há muito que tenho consciência que no seio do Partido Socialista há duas correntes educativas que procuram, cada qual a seu modo e a seu tempo, afirmar a sua preponderância.
Uma, porventura humanista, defende que os professores e as escolas sabem o que querem e sabem trabalhar para alcançar esses objectivos. É uma corrente que defende a regulação, isto é, a definição dos possíveis dentro dos quais, escolas e professores, se manifestam e definem estratégias e implementam metodologias.
Mas há uma outra, mais regulamentadora, isto é, mais legisladora, mais directiva, que defende que se deve dizer às escolas e aos professores o que devem fazer e como devem fazer. É uma corrente mais tradicional, mais jurídico-administrativa que considera e sobreleva a necessidade de formação por parte dos professores e das escolas quanto à capacidade de definir e construir futuros.
Tanto uma como outra são evidentes nas propostas que se apresentam neste momento nos discursos da tutela. Com um claro ascendente daqueles que defendem que as escolas e os professores são gente bruta que, se não se lhes disser como, não fazem nada e procuram a gentileza da tradição, do comodismo, do mínimo denominador comum.
Sou, clara e objectivamente, apologista da primeira posição, mais regulador, valorizador das autonomias profissionais, das capacidades locais, mas, por vezes, aos ouvir os meus distintos colegas, convencço-me que o outro lado, o da regulamentação, o da ordem e do sentido directo e directivo, estarão mais correctos, serão mais adequados àquilo que temos nas escolas.
Convenço-me que se não existirem ordens directas continuamos, persistimos e insistimos no habitual. Não somos capazes, por razões várias, de inovar, de fazer diferente, de ousar.
Dicotomias. E nós no meio.

do princípio

Penso ter perdido uma posta sobre a ideia apresentada, um pequeno texto onde afirmava que, na generalidade, os professores reagem negativamente às ideias apresentadas, ideias diferentes, outras propostas que não se insiram num modelo ou numa fôrma habitual, esteriótipada.
Tenho consciência que a ideia que apresentei pode mexer com algumas ideis feitas, com aquele senso comum que se visibiliza, com os pré-conceitos que se descobrem que são isso mesmo, pré-conceitos.
O que aqui se revela não é má fé ou falta de vontade, apenas ignorância, falta de formação para podermos perspectivar outros modos, outros possíveis, equacionar aquilo que há muito defendo, um professor reflexivo, que pense aquilo que faz e não seja, apenas e somente um funcionário público.
Mas há ainda muito caminho a percorrer.

dificuldade

Hoje tem sido difícil postar ideias, uma vez que o blogger parece entre o virado e o atacado.
Devagar talvez lá se chegue.