domingo, setembro 23

portefólio


O Miguel pergunta, a propósito da ideia do portefólio como instrumento de avaliação docente, "E quem avalia esse documento? O delegado de grupo (titular ou não)? O PC Executivo? A Inspecção? Quem tem competência e que competência deve ter para avaliar?";

apesar de considerar que santos da casa não fazem milagres, considero que deveria ser o conselho pedagógico a definir a equipa de avaliação, procurando respeitar três vértices essenciais ao sistema, os pares de docentes (da área ou de fora dela, mas pares docentes), a comunidade (por intermédio da associação de pais, dos conselhos municipais de educação ou pela simples e pura participação comunitária) e as estruturas do conhecimento, nomeadamente instituições da formação contínua (centros de formação, universidades, politécnicos);
concordo com o pressuposto que a avaliação dos docentes deverá levar em consideração o projecto educativo de escola, ora será por intermédio deste que se configurarão as competências a avaliar e, acima de tudo, as legitimidades de avaliação;

chamo a atenção para o facto de esta minha reflexão não decorrer de um pensamento profundo sobre a temática; pelo contrário, apenas pretendo apresentar outras alternativas ao modelo instituído (apresentado) pelo ministério, na tentativa de não me ficar pela crítica, procurando contrapor alternativas;

políptico avaliativo

seria, no meu entender, muito mais lógico que se assumisse o políptico discursivo, de práticas e de concepções que se confrontam na escola;
como? por intermédio de uma reflexão crítica que permitisse respeitar especificidades e contextos, lógicas e racionalidades;
reflexão crítica assente, por exemplo, num portefólio do professor, onde pudessem ser perspectivadas as opções, os objectivos, os contextos, os meios e as soluções;
seria de maior dificuldade de uniformização, é verdade, mas respeitar-se-iam contextos, percursos, pensamentos, modelos e concepções que prevalecem nas escolas;

compreender a avaliação


decorrente de algumas arrumações do meu espaço tive oportunidade de reencontrar um livro de meados de 2006 deveras interessante e pertinente para a discussão em torno das questões da avaliação - sejam elas dos professores, dos alunos ou da escola;
num capítulo do livro, L. Lima defende a tese que "toda e qualquer acção de avaliar em contexto escolar baseia-se numa concepção organizacional da escola, implícita ou explícita, que ao instituir um determinado quadro de racionalidades permite definir a natureza dos objectivos e das tecnologias, estabelecer relações entre meios e fins e entre estrutura e agência, legitimar determinados processos de planeamento e de decisão, bem como a inclusão/exclusão de certos actores nesses processos (...)";
ora o que considero que está em causa na proposta apresentada de avaliação do corpo docente, é uma clara mistura entre meios e fins, relegando para plano meramente secundário quem é alvo da avaliação, quantificando situações de duvidosa classificação e olhando a função docente como se "educação contábil" (define a educação que conta em função do carácter contável, mensurável e comparável dos resultados educativos produzidos) se tratasse;

sábado, setembro 22

alfazema


depois de algum do spam, este espaço ficou a carecer de alguma flor de algum melhor cheiro;
deixo a imagem da alfazema do jardim; a oportunidade de iluminar o espaço e torná-lo mais apetitoso e cheiroso;

engulhos

isto de andar a querer investigar, tal como é exigido num processo de doutoramento, e trabalhar tem as suas coisas e os seus engulhos;
ontem tive a oportunidade de me cruzar com duas colegas que, como eu, andam neste processo;
uma equaciona desistir, fruto das assumidas dificuldades de conjugar o processo de investigação com a profissão e a família; outra, ao fim de praticamente dois anos de trabalho e de ter apresentado um projecto que se encontrava claramente estruturado e orientado ter optado por refazer tudo e regressar à estaca zero, ao ponto de partida;
não é fácil a gestão destes processos fora dos meios académicos e do seu enquadramento universitário;
requer organização e concentração, focalização e rigor;
ao contrário das colegas agora sou eu que tenho espaço e tempo, oportunidade e benefícios para me dedicar a este enredo;
lá para finais de 2009 se dirá de sua justiça;

avaliação e uniformidade

ora cá está uma das razões pelas quais a blogosfera é um espaço interessante e pertinente.
a partir de uma entrada de Paulo Guinote, a oportunidade de conhecer as famosas grelhas de avaliação do pessoal docente - espero que em versão de discussão (?);
nada tenho contra a avaliação; pelo contrário, considero que pode ser um instrumento interessante na regulação das práticas educativas na relação da escola com a comunidade;
mas o que nos é apresentado está longe desse figurino e dessa pretensão; o Ministério persiste em trocar e baralhar meios e fins, sejam os da educação e do trabalho docente, sejam os da própria avaliação; a divisão ali apresentada não deixa dúvidas para a mistela que é produzida com a agravante de ali se quererem colocar todas e mais alguma situação, as de Lisboa com as de Barrancos, as de Coimbra com as de Beja, as de Évora com as de Tordosendo, etc; não tem sentido, é quer uniformizar, por via do processo de avaliação, as práticas e os procedimentos educativos e pretender que todos, independentemente dos contextos e das circunstâncias (da escola, dos alunos, das comunidades) procedam do mesmo modo e da mesma maneira;
é tão estúpido quanto considerar que o sistema é igual de uma ponta à outra;

quinta-feira, setembro 20

instrumentos

tenho andado a trabalhar um conceito, o de instrumentos de acção pública, originários da economia e das ciências do ambiente;
o objectivo é transpo-los para a área da educação, mediante a sua recontextualização em termos de caracterização e dimensionalidades;
referenciei recentemente um sítio na net que dá conta de um trabalho, dirigido por um sociólogo francês, que aborda o mesmo conceito mas na área da saúde;
tirei-me de poeiras e vá de lhe enviar um mail para trocar ideias, leituras, referências, oportunidades;
atão não é que já respondeu?
interessante as analogias que se podem perspectivar e a riqueza da partilha de contributos;

de início

o ano lectivo começou com todas as coisas que lhe conferem uma chamada normalidade;
em virtude do projecto a que me dedico, tenho possibilidades de recordar outros inícios, daqueles em que não havia professores (em alguns casos ao longo de todo o ano), em que as manifestações (de professores, alunos, pais/encarregados de educação) aconteciam por todo o lado e a propósito de tudo e de nada;
a escola mudou; permaneceu o atrito entre professores e ministério, numa clara aceitação de relações tensas que se cruzam entre uma estrutura funcionalizada e uma acção que se pretende pedagógica;
este é um início, como todos os outros, de princípio...

quarta-feira, setembro 19

da chuva

na minha primeira posta, já lá vão uns tempos, dizia que pretendia sair do anonimato e entrar na imensa minoria da blogosfera;
desde essa vez, este espaço ganhou dimensões, protagonistas e oportunidades;
desde a simples crónica ao diário ritualista, a blogosfera tornou-se ponto de passagem obrigatório, até para se poderem perspectivar determinadas situações ou acontecimentos (factuais ou não) e uma visibilidade que pode variar entre o fórum participativo e cosmopolita e a simples arruaça insinuadora e mordaz;
cada um faz deste espaço o que quer e o que pretende, o que pode e o que consegue; como retira as ilações que consegue e que quer; mas é um espaço individual que se colectivizou pela participação; por isso nunca retirei os comentários, reconhecedor que quem anda à chuva se pode molhar;
mas não comungo de arruaças e de arruaceiros, como não gosto de brincar ao toca e foge; desde sempre assumi e assumo as minhas ideias e os meus argumentos, sabendo que valem pouco ou nada;
mas não abdico de falar daquilo que gosto, da minha cidade, da minha região da minha profissão, da minha vida;
tenham outros os argumentos para poderem, abertamente, falar; ou têm vergonha de quê?

spam

tenho de reconhecer que tenho um conjunto de comentários que mais se parecem com spam do que com comentários;
irritadiços, reveladores de alguma dor de cotovelo, cheios daquela inveja mesquinha, do feitiozinho recambulesco do bota abaixo, incapazes de discernir entre a opinião e o argumento;
é certo que alguns gostariam que eu desaparecesse, não apenas da blogosfera mas da face da terra, deixasse de incomodar, de irritar quem julga tudo poder e mandar;
continuem-se a irritar, a sentir mesquinhos e pequenininhos pois por aqui irei andar, a largar postas de pescada, como digo, de cabeça, comigo em fundo por tudo e para nada;
talvez se ultrapassarem essa fase freudiana do toque e foge, do anonimato envergonhado possamos trocar ideias e argumentos e chegar à brilhante conclusão que afinal, é muita parra e nenhuma uva;

terça-feira, setembro 18

prós e contras

o de ontem, na rtp1, foi, uma vez mais, sobre a educação, o que muda e o que não muda;
do debate, que considero ter sido dos melhorzitos, algumas ideias soltas:
a educação é um tema que mediaticamente vende, é rentável, dá audiências; não quero exagerar, mas terá sido o terceiro programa este ano sobre a educação, diferentes facetas é verdade, mas sobre a educação; nenhum outro tema consegue suplantar o mediatismo televisivo da educação;
foi um claro sinal de como estão as coisas, entrincheirados em cada um dos lados, ninguém parece mostrar bom senso, agarrar uma das pontas que permita ir até ao lado; mais se parece com um ataque ao castelo onde, não interessa vindo de onde nem quais os seus objectivos, o importante é deitar abaixo, de um lado e do outro, e os lados em educação são muitos;
a escola tem assente a sua estrutura na acção (e funcionalização) dos professores; tem sido excessivo, como tem sido excessivo centrar as políticas educativas no papel dos professores, como pretendem os sindicatos; mas não se pode passar do 88 ao 8; não há política educativa que sirva ou que perdure se for contra os professores, não se pode fazer política educativa sem os professores (de resto como não se pode fazer política de saúde sem os médicos, de justiça sem os advogados, etc) e, aparentemente, a senhora sinistra isolou o que pretensamente considera um dos focos do problema - erradamente direi eu;
sobre o tema, o que muda em educação, uma banalidade, tudo muda para que tudo fique na mesma; as mudanças, ou a sua sensação, é de tudo se alterar de governo para governo, de governante para governante; contudo, na essência, a estrutura (organizacional, funcional, política, social) da educação tem permanecido estável, perdura na longa duração;
um conclusão, pessoal, enquanto as escolas (e os professores) não se conseguirem afirmar enquanto elementos de mudança, de afirmação contextual (localizada dirá um amigo), de organização diferenciada, da assunção de outras lógicas de trabalho, o ministério prevalecerá porque os operários, cedo ou tarde, feliz ou infelizmente, perdem quase sempre;

segunda-feira, setembro 17

primeiro dia

o primeiro dia de aulas é quase uma festa;
é o matar saudades dos amigos, é a recepção um novo espaço, como se de um processo de iniciação se tratasse, é o confrontar com novas e diferentes realidades, são os ruídos diferentes, os ambientes;
é o primeiro dia do resto das nossas vidas;
na minha escola, apesar dos planos tecnológicos, dos choques electrónicos, os professores continuam a disputar os computadores como se de matéria rara se tratasse, e trata efectivamente;
os ambientes na sala de professores são ainda entre o circunstancial e o coloquial, fruto das caras novas, das novidades, das diferenças;
mas os ruídos são os mesmos de sempre, as correrias, as brincadeiras, as descobertas;
são coisas que, apesar das modas e das vicissitudes, não passam de moda e de serem um eterno princípio;

erros

a propósito das diversas referências que são feitas (todas lógicas e correctas) aos meus erros, ortográficos ou gramaticais, deixo dois comentários;
um pessoal, continua-se a olhar a escola e os seus professores de baixo de uma lógica instrumental, isto é, depois de passar pela escola, ou de dela nunca (ou quase) ter saído, os erros são imperdoáveis, censuráveis, limitadores da função e do exercício; mas é com o erro que se aprende, ou não?
uma outra baseada no senso comum, "O único modo de evitar os erros é adquirindo experiência; mas a única maneira de adquirir experiência é cometendo erros", retirada daqui;

domingo, setembro 16

normalidade

amanhã é dia de regresso à normalidade, digo, o regresso da escola para toda a família, impondo regras, definindo horários, ditando dinâmicas e ritmos;
já se sente a falta da escola, ainda que à pergunta se estão preparados respondam "que remédio", sente-se que se anseia pelo regresso;
para ela por ser, para além de um novo ano, um espaço novo, para ele por ser um ano novo;
as apresentações foram q.b., entre as regras de conduta e de orientação pelos comportamentos, aos apelos ao trabalho e ao empenho dos pais para que acompanhem os filhos e os educandos nas suas tarefas domésticas;
para mim é um regresso sempre esperado, para os desafios que se impõe a um espaço e a um modo de se e estar;
vamos a eles que se faz tarde...

fim-de-semana

ao fim-de-semana refugiu-me até de mim mesmo; fujo para o meu cantinho e desligo-me do mundo; apenas pontualmente percebo o que acontece, ou por um zapping intempestivo ou por um click fortuito me permitir aceder a um ou outro jornal;
de resto gosto de fugir daquilo que me rodeia e sentir apenas o silêncio prazenteiro da vida na aldeia;

quinta-feira, setembro 13

actualizações


procedi a algumas alterações (e re-configurações) neste meu cantinho;
dividi os interesses e alguns argumentos;
não vai tudo, ao desbarato, ali para o lado, seja sobre a escola/educação, seja sobre esta minha cidade/região;
ficam apenas aquelas com as quais, por uma ou outra razão, me identifico, me construo e percebo; não significa isto que concorde com todas elas, com as escritas ou as opiniões, mas são formas de entender o que sou, o que faço e o que pretendo nos espaços que percorro;
para qualquer comentário fico à disposição, pois continua aberto ao spam livre :))

normatividade


uma das situações que desde sempre me complicou os nervos é o excesso de normatividade, de directividade da acção pública, particularmente na área da educação; esta situação cerceia oportunidades, constrange soluções, nega alternativas, impõe decisões; resumidamente, empobrece os contextos, sempre ricos em diversidade de situações e alternativas;
é típico de dois contextos, por um lado da centralização, de quem tem a pretensão de tudo poder e mandar; por outro, da dúvida, do receio, da angustia perante a acção do outro;
sempre combati esta situação, sempre me insurgi contra ela; volto a senti-la, na escola, com a força do arrogante de quem tudo pode e quer, e a pretensão de quem tudo sabe e conhece;

"quem nos faz como somos"


«Por um lado são os genes que nos obrigam a fazer certas coisas para eles sobreviverem e se aperfeiçoarem no futuro. Por outro são as culturas, incluindo a linguagem, as religiões, os media e todos esses instrumentos de manipulação que também nos usam para assegurar a sua sobrevivência. E, em terceiro lugar, são as relações entre pessoas, às vezes complexas e paradoxais, mas que nos dão alguma margem de liberdade. Felizmente que as imposições biológicas entram muitas vezes em contradição com a formação cultural, se não seríamos autênticos robots! É neste conflito que não ganhamos a liberdade. A possibilidade de sermos como somos.»
uma muito boa surpresa, encontrada quase por acaso nas estantes de uma livraria da terra;

terça-feira, setembro 11

do arquivo


o trabalho em arquivo tem sido riquíssimo;
apesar da minha primeira baliza cronológica assentar em 1977, fruto da primeira publicação do regime disciplinar do aluno, recuei a 1970, para me poder aperceber das principais alterações pós implantação da democracia;
e aí tenho dado com relatos claramente interessantes, que vão desde greves de alunos, ainda antes de 74, a manifestações culturais de professores, logo após 74, a manifestos sindicais, ou a reivindicações de alunos contra determinados programas disciplinares;
entre uns e outros, a percepção que os problemas disciplinares, relacionados com comportamentos, simplesmente não existem, e não existem porque estes alunos eram, pura e simplesmente, excluídos do sistema, por excesso de faltas, do absentismo; restava aquela franja de normalidade que permitia o desenrolar das aulas de forma "normal";

texturas


gosto da política, gosto da discussão, gosto de trocar ideais, gosto de conversar;
seja com quem for, seja pelo que for;
o DD nada tem a ver comigo mas é um privilégio poder trocar ideias com ele, beber a sua experiência e os seus argumentos; outros, a que pouco me liga, idem aspas;
gosto da conversa, da sua textura, de perceber como as coisas funcionam, como as coisas se ligam e interligam;
gosto de perceber o que está por baixo da primeira capa, das primeiras impressões; sei que somos, muitas vezes, avaliados pelas primeiras impressões, não gosto de me ficar por aí; talvez um problema da minha deformação inicial em História;
reconheço-me, por vezes, lento a perceber as coisas; defeitos pessoais com implicações individuais, é certo, mas não me arrependo, gosto de as sentir, de as ver passar, de as sentir - fruto, talvez, da idade;