... longe da emoção a minha escrita não faz sentido, diz o Miguel. Roubei-lhe a feliz ideia, para afirmar que sem emoção nenhuma escrita faz sentido.
Nem a escrita, nem a vida, acrescento eu.
quarta-feira, março 9
da participação
Ainda a propósito da integração na minha escola de turmas do 1º ciclo, já aconteceram encontros e reuniões com a direcção regional de educação, com pais e encarregados de educação, com professores do 1º ciclo, com auxiliares de acção educativa. Com quase todos. Quase...
Será que se esqueceram dos restantes professores? Será que os professores do 2º e 3º ciclos não serão merecedores de participarem nestas conversas? será que não há razões que permitam a participação de todos, e não apenas de alguns, neste processo?
Será que se esqueceram dos restantes professores? Será que os professores do 2º e 3º ciclos não serão merecedores de participarem nestas conversas? será que não há razões que permitam a participação de todos, e não apenas de alguns, neste processo?
terça-feira, março 8
da mudança
Este comentário, colocado numa das minhas postas, levanta, uma vez mais, um conjunto de ideias importantes, pertinentes e necessárias à discussão sobre a escola.
Este comentário, remete para pontos de vista, olhares sobre a escola e sobre a educação e sobre o eixo em torno do qual poderá rodar a mudança escolar e educativa. Como remete para diferentes planos, o das intencionalidades do docente, o da agradabilidade dos discentes, da sua aceitação, da sua justificação.
Ou seja, será a mudança um processo individual ou colectivo? rodará em torno dos professores ou dos alunos? a mudança será uniforme ou descontinuada? muda a escola ou mudam os professores? Há escola sem professores?
Este comentário, remete para pontos de vista, olhares sobre a escola e sobre a educação e sobre o eixo em torno do qual poderá rodar a mudança escolar e educativa. Como remete para diferentes planos, o das intencionalidades do docente, o da agradabilidade dos discentes, da sua aceitação, da sua justificação.
Ou seja, será a mudança um processo individual ou colectivo? rodará em torno dos professores ou dos alunos? a mudança será uniforme ou descontinuada? muda a escola ou mudam os professores? Há escola sem professores?
das listas
quase sem querer encontrei uma listagem de blogs sobre educação, não conheço a sua origem nem a metodologia quer de recolha quer de seriação.
De acordo com esta metodologia este meu espaço da escola está na 1021ª posição do ranking. Será bom? será mau? Não sei, mas também não estou grandemente preocupado com isso.
Mais pela curiosidade, aqui deixo a referência.
De acordo com esta metodologia este meu espaço da escola está na 1021ª posição do ranking. Será bom? será mau? Não sei, mas também não estou grandemente preocupado com isso.
Mais pela curiosidade, aqui deixo a referência.
segunda-feira, março 7
frases
... muito do insucesso escolar reside na incapacidade de os professores se atreverem a fazer diferente (...).
Retirei esta frase daqui. Talvez apenas eu ainda não a tivesse visto, uma vez que é do passado dia 4, e corra o risco de fazer uma chamada desnecessária. Mas não resisti pela pertinência e pela plena concordância que sinto por ela.
Falta coragem na escola portuguesa para ser diferente e de não ter nem medo nem vergonha de assumir essa diferença.
Retirei esta frase daqui. Talvez apenas eu ainda não a tivesse visto, uma vez que é do passado dia 4, e corra o risco de fazer uma chamada desnecessária. Mas não resisti pela pertinência e pela plena concordância que sinto por ela.
Falta coragem na escola portuguesa para ser diferente e de não ter nem medo nem vergonha de assumir essa diferença.
da formação
Encontro-me, por obrigação, a participar numa acção de formação que decorre aos sábados. Entre a necessidade de obtenção de créditos para progressão na carreira e a obrigação da formação, optei por uma temática que me pareceu, e se confirma, útil, a da elaboração de portfolios como instrumento de avaliação, quer do professor quer dos alunos.
Felizmente, superaram-se as expectativas, decorrente do domínio da temática pelo senhor que forma, pelas conversas que se têm desenvolvido, pela troca de ideias que se promovem, pela consciencialização de práticas e de modos a que somos obrigados, pelo confrontar com a nossa prática e a sua interpretação.
A grande ideia do passado sábado decorreu da constatação da necessidade de espaços na nossa escola para trocarmos ideias, para aferirmos preocupações, para percebermos conceitos, para interpretámos práticas, para, simplesmente, falarmos sobre a nossa profissão.
A não existência destes espaços faz com que a formação, muita das vezes, seja uma válvula de escape sobre isto mesmo, sobre as condições que dizemos não ter, sobre o tempo que nos falta, sobre as angustias da avaliação e dos exames, do controlo dos pais e da regulamentação administrativa, das modas e dos tempos.
Fui para lá contrariado, estou lá agradado - ainda que por vezes, sinta que me porto menos bem, uma vez que promovo a troca de ideias, a discussão de aspectos e assuntos pouco habituais na nossa discussão e que, por vezes, fogem à temática.
Felizmente, superaram-se as expectativas, decorrente do domínio da temática pelo senhor que forma, pelas conversas que se têm desenvolvido, pela troca de ideias que se promovem, pela consciencialização de práticas e de modos a que somos obrigados, pelo confrontar com a nossa prática e a sua interpretação.
A grande ideia do passado sábado decorreu da constatação da necessidade de espaços na nossa escola para trocarmos ideias, para aferirmos preocupações, para percebermos conceitos, para interpretámos práticas, para, simplesmente, falarmos sobre a nossa profissão.
A não existência destes espaços faz com que a formação, muita das vezes, seja uma válvula de escape sobre isto mesmo, sobre as condições que dizemos não ter, sobre o tempo que nos falta, sobre as angustias da avaliação e dos exames, do controlo dos pais e da regulamentação administrativa, das modas e dos tempos.
Fui para lá contrariado, estou lá agradado - ainda que por vezes, sinta que me porto menos bem, uma vez que promovo a troca de ideias, a discussão de aspectos e assuntos pouco habituais na nossa discussão e que, por vezes, fogem à temática.
os doidos querem-se juntos
... ouvi há pouco esta expressão tendo em conta que passei a manhã com uma criança deficiente que se enlevou pela minha pessoa.
Uma criança que, dentro da sua deficiência, levanta problemas, causa atritos, desorganiza as sessões de colegas que procuram desenvolver o seu trabalho.
Circulava pelo corredor na companhia de uma funcionária que quase que gritava que Deus voltasse à terra para a acudir. Dispus-me a ficar com ele, no contexto de uma turma com quem estava.
Fizemos desenhos, desenhámos e comparámos as mãos, entretivemo-nos com a turma, procurámos material que os restantes nos solicitavam.
Saíu e foi a correr para casa dizer à mãe que tinha mudado de turma, de horário e de professor. Agora estava com um homem amigo.
Os comentários, entre o sério e a brincadeira, entre o descanço de deixar de aturar o Luís e o sossego de eu com ele me entreter, conduziram a esta feliz expressão, os doidos querem-se juntos.
Gosto de ser doido.
Uma criança que, dentro da sua deficiência, levanta problemas, causa atritos, desorganiza as sessões de colegas que procuram desenvolver o seu trabalho.
Circulava pelo corredor na companhia de uma funcionária que quase que gritava que Deus voltasse à terra para a acudir. Dispus-me a ficar com ele, no contexto de uma turma com quem estava.
Fizemos desenhos, desenhámos e comparámos as mãos, entretivemo-nos com a turma, procurámos material que os restantes nos solicitavam.
Saíu e foi a correr para casa dizer à mãe que tinha mudado de turma, de horário e de professor. Agora estava com um homem amigo.
Os comentários, entre o sério e a brincadeira, entre o descanço de deixar de aturar o Luís e o sossego de eu com ele me entreter, conduziram a esta feliz expressão, os doidos querem-se juntos.
Gosto de ser doido.
da integração
Esta escola, a minha escola, vai passar, no próximo ano lectivo, a ter turmas do primeiro ciclo num espaço habitualmente destinado a grupos do 2º e 3º ciclo.
As negociações começaram há já algum tempo. As preocupações também.
Apercebi-me dessa situação, da negociação, do estabalecer de regras e normas mais ou menos de orientação.
Já passei, no princípio dos anos 90, por um filme muito idêntico, pela criação então de uma das muito poucas escolas básicas integradas.
Turmas e pessoas, trastes e quinquilharias, modos e medos, receios e expectativas e anseios, culturas e procedimentos, hábitos e usos tudo passou de um lado para o outro, de um espaço exíguo, confinado cheio de histórias e tradição para um espaço estranho, dos grandes, onde se esperava confusão.
O único receio o único inconveniente decorreu dos professores, que permaneceram isolados, enclausurados nas suas culturas, no seu mundo e nos seus ambientes. Os alunos integraram-se, disfrutaram de um novo espaço, de novos recursos e condições.
Há pouco, ao aperceber-me dessa conversa ainda opinei, ainda disse da alguma experiência que adquiri.
Depois calei-me.
As negociações começaram há já algum tempo. As preocupações também.
Apercebi-me dessa situação, da negociação, do estabalecer de regras e normas mais ou menos de orientação.
Já passei, no princípio dos anos 90, por um filme muito idêntico, pela criação então de uma das muito poucas escolas básicas integradas.
Turmas e pessoas, trastes e quinquilharias, modos e medos, receios e expectativas e anseios, culturas e procedimentos, hábitos e usos tudo passou de um lado para o outro, de um espaço exíguo, confinado cheio de histórias e tradição para um espaço estranho, dos grandes, onde se esperava confusão.
O único receio o único inconveniente decorreu dos professores, que permaneceram isolados, enclausurados nas suas culturas, no seu mundo e nos seus ambientes. Os alunos integraram-se, disfrutaram de um novo espaço, de novos recursos e condições.
Há pouco, ao aperceber-me dessa conversa ainda opinei, ainda disse da alguma experiência que adquiri.
Depois calei-me.
perfil
será que, a partir do perfil da nova ministra da educação, se podem inferir duas situações?
Um perfil gestionário, onde se encaixará a gestão de um monstro, de um polvo, de uma máquina de corroer recursos, sem consequências, sem resultados?
Um perfil tecnológico, capaz de implementar novas soluções e articular o famoso plano tecnológico?
O resto? qual resto?
É esperar por políticas, medidas, acções mais concretas, um programa e mais protagonistas.
Um perfil gestionário, onde se encaixará a gestão de um monstro, de um polvo, de uma máquina de corroer recursos, sem consequências, sem resultados?
Um perfil tecnológico, capaz de implementar novas soluções e articular o famoso plano tecnológico?
O resto? qual resto?
É esperar por políticas, medidas, acções mais concretas, um programa e mais protagonistas.
sexta-feira, março 4
confiança
Foram rápidos os comentários como oportunos e pertinentes colocados à minha entrada anterior.
Obviamente que o tom, o meu tom, é entre o negativo e o expectante, não podia ser de outro modo.
As expectativas estão, e não apenas do meu lado, demasiadamente elevadas, demasiadamente exigentes. Os resultados, a democracia assim o determinaram, assim o exigem.
Queremos mais, queremos melhor, meremos muito melhor, precisamos de melhor.
Mas, obviamente que todo e qualquer protagonista da 5 de Outubro me merece, nesta altura e neste contexto, o benefício da dúvida.
Mas, desculpem lá o raio do meu feitio, a porra da idade e o calejar dos anos, mas não resisto a ter má impressão do pessoal da área da economia [faz-me lembrar a Manuela quando por lá passou].
O problema do Ministério da Educação não se prende com dinheiro, nem com finanças, nem com investimentos.
No meu entender o problema do polvo está preso na falta de uma ideia de escola, de qual o papel dos diferentes ciclos de ensino, de quais as competências que a escola, nos diferentes ciclos de ensino, deve promover e procurar, de qual a articulação entre formação inicial da juventude e a sociedade que procuramos e que queremos, de qual o país que queremos daqui a 20, 30 anos, de qual o papel do professor neste contexto e nesta sociedade, de qual a sua acção e intervenção.
Ao fim e ao cabo de qual o papel da escola e do professor na construção de futuros.
Fico, para todo o caso, expectante - pelo menos até ver os secretários de estado.
Basta de nulidades. Chega de ausências veladas e de presenças pardas [e parvas].
Obviamente que o tom, o meu tom, é entre o negativo e o expectante, não podia ser de outro modo.
As expectativas estão, e não apenas do meu lado, demasiadamente elevadas, demasiadamente exigentes. Os resultados, a democracia assim o determinaram, assim o exigem.
Queremos mais, queremos melhor, meremos muito melhor, precisamos de melhor.
Mas, obviamente que todo e qualquer protagonista da 5 de Outubro me merece, nesta altura e neste contexto, o benefício da dúvida.
Mas, desculpem lá o raio do meu feitio, a porra da idade e o calejar dos anos, mas não resisto a ter má impressão do pessoal da área da economia [faz-me lembrar a Manuela quando por lá passou].
O problema do Ministério da Educação não se prende com dinheiro, nem com finanças, nem com investimentos.
No meu entender o problema do polvo está preso na falta de uma ideia de escola, de qual o papel dos diferentes ciclos de ensino, de quais as competências que a escola, nos diferentes ciclos de ensino, deve promover e procurar, de qual a articulação entre formação inicial da juventude e a sociedade que procuramos e que queremos, de qual o país que queremos daqui a 20, 30 anos, de qual o papel do professor neste contexto e nesta sociedade, de qual a sua acção e intervenção.
Ao fim e ao cabo de qual o papel da escola e do professor na construção de futuros.
Fico, para todo o caso, expectante - pelo menos até ver os secretários de estado.
Basta de nulidades. Chega de ausências veladas e de presenças pardas [e parvas].
desculpe ?
... desculpe, importa-se de repetir?, disse Maria de Lurdes Rodrigues?
Pois é, peço desculpa da ignorância, peço desculpa de ser alentejano, mas não sei quem é.
Diz que é a nossa nova ministra da educação? Se dizem na televisão, acredito.
Não sei quem seja, mas estou certo que será profunda conhecedora do sistema educativo, dos problemas que existem, das ângustias de pais e professores, de alunos e funcionários, das perturbações do sistema, das entropias e dos grãos de areia, dos pedregulhos e das carências, certamente terá opinião sobre os exames, sobre os concursos de professores, qual o papel da acção social escolar, da avaliação, da formação contínua de professores, dos agrupamentos e dos sentimentos, do ensino profissional e do artístico, do tecnológico e do científico.
Nem podia de ser de outra maneira. Ou pode?
Pois é, peço desculpa da ignorância, peço desculpa de ser alentejano, mas não sei quem é.
Diz que é a nossa nova ministra da educação? Se dizem na televisão, acredito.
Não sei quem seja, mas estou certo que será profunda conhecedora do sistema educativo, dos problemas que existem, das ângustias de pais e professores, de alunos e funcionários, das perturbações do sistema, das entropias e dos grãos de areia, dos pedregulhos e das carências, certamente terá opinião sobre os exames, sobre os concursos de professores, qual o papel da acção social escolar, da avaliação, da formação contínua de professores, dos agrupamentos e dos sentimentos, do ensino profissional e do artístico, do tecnológico e do científico.
Nem podia de ser de outra maneira. Ou pode?
quinta-feira, março 3
Leituras
O Abrupto de hoje, na vez e na voz dos seus leitores [desconfio que um dia se tornarão e-leitores] traz-me recordações da minha infância, de tempos em que [como hoje] pouco dinheiro tinha exactamente na proporção inversa da muita sede de livros e leituras que também tinha.
Entre uma e outra lembro-me de duas situações que, para além da já referida biblioteca pública de Évora, me alimentavam a sede.
Uma era a papelaria Angola, agora com um estilo novo, qual quiosque de uma cidade, onde abundavam revistas, jornais e livros tudo ao monte e fé em Deus, amontoado entre caixotes, pacotes de cigarros e um balcão idiota que dificultava o acesso à estante dos livros. Ainda por cima a papelaria ficava, para mim e para todos aqueles com quem andava, num sítio estratégico. Exactamente por cima ficava uma senhora que, de Verão, vendia pirolitos, chupa-chupa de sabores, feitos em casa obviamente e que, demolhados em açúcar queimado, eram a delícia da rapaziada. Tantos tostões roubei eu à mãe ou à tia para ir ali comprar pirolitos, descer e sentar-me no chão a ler livros de banda desenhada ou histórias de encantar que me apareciam na mão.
Um outro, ligeiramente mais recente, já pós 25 de Abril de 74, era a tabacaria do senhor Sofio, a meio da rua de Aviz, mais acessível pela proximidade de casa, de mais difícil acesso por tanto o pai como a mãe por ali passavam e eu, sem relógio, apanhado em leituras por vezes mais travessas.
A tabacaria do sr. Sofio permitiu-me alargar horizontes, pois trouxe para Évora uma coisa que, pelo menos eu, desconhecia então, a troca de livros. Levava uns quantos, o senhor folheava-os, mirava-os e, com aquele ar circunspecto no meio dos seus mais de cem quilos de largura, dizia que podiamos trocar por outros tantos, obviamente que quase sempre em número inferior, pois a casa nunca saía a perder.
Entre um e outro estabelecimento fazia o Verão, as férias então tão grandes como os dias. Perdia-me em leituras, desorientava-me naquilo que ainda hoje gosto de fazer, entrar numa livraria e mexer nos livros, folhear ao acaso páginas, ler aqui e ali um parágrafo, apanhar um sentido.
Hoje temos a fnac e, no Porto, [que gosto e conheço mais e melhor] livrarias que, entre modas e oportunidades, permitem folhear livros, sentir um livro na mão, sentir o peso das ideias e dos sentimentos que transporta.
ele há dias assim.
Entre uma e outra lembro-me de duas situações que, para além da já referida biblioteca pública de Évora, me alimentavam a sede.
Uma era a papelaria Angola, agora com um estilo novo, qual quiosque de uma cidade, onde abundavam revistas, jornais e livros tudo ao monte e fé em Deus, amontoado entre caixotes, pacotes de cigarros e um balcão idiota que dificultava o acesso à estante dos livros. Ainda por cima a papelaria ficava, para mim e para todos aqueles com quem andava, num sítio estratégico. Exactamente por cima ficava uma senhora que, de Verão, vendia pirolitos, chupa-chupa de sabores, feitos em casa obviamente e que, demolhados em açúcar queimado, eram a delícia da rapaziada. Tantos tostões roubei eu à mãe ou à tia para ir ali comprar pirolitos, descer e sentar-me no chão a ler livros de banda desenhada ou histórias de encantar que me apareciam na mão.
Um outro, ligeiramente mais recente, já pós 25 de Abril de 74, era a tabacaria do senhor Sofio, a meio da rua de Aviz, mais acessível pela proximidade de casa, de mais difícil acesso por tanto o pai como a mãe por ali passavam e eu, sem relógio, apanhado em leituras por vezes mais travessas.
A tabacaria do sr. Sofio permitiu-me alargar horizontes, pois trouxe para Évora uma coisa que, pelo menos eu, desconhecia então, a troca de livros. Levava uns quantos, o senhor folheava-os, mirava-os e, com aquele ar circunspecto no meio dos seus mais de cem quilos de largura, dizia que podiamos trocar por outros tantos, obviamente que quase sempre em número inferior, pois a casa nunca saía a perder.
Entre um e outro estabelecimento fazia o Verão, as férias então tão grandes como os dias. Perdia-me em leituras, desorientava-me naquilo que ainda hoje gosto de fazer, entrar numa livraria e mexer nos livros, folhear ao acaso páginas, ler aqui e ali um parágrafo, apanhar um sentido.
Hoje temos a fnac e, no Porto, [que gosto e conheço mais e melhor] livrarias que, entre modas e oportunidades, permitem folhear livros, sentir um livro na mão, sentir o peso das ideias e dos sentimentos que transporta.
ele há dias assim.
Devem ser poucos os que antes, durante e mesmo depois da minha geração, e que residiam ou estudassem nesta cidade de Évora não tenham passado, frequentado, utilizado a biblioteca pública de Évora.
Aqueles que, no meu tempo de estudante e tal como eu, passaram tardes inteiras na companhia daquele espaço, das figuras sempre presente e eternas do Chitas e da Jacinta, sabem que é um espaço maravilhoso.
Entrei nele pela primeira vez deveria ter uns 11 ou 12 anos, fruto de um trabalho do ciclo, daquelas coisas impostas pelos professores e que nos obrigavam a procurar outras fontes de informação.
O peso do espaço oprimia uma criança e, perante aquelas formalidades e a figura daquele homem que, de dedos amarelos, óculos fundo de garrafa na ponta do nariz, entre o corcunda e o encorvado, nos pedia o bilhete de identidade num tom de voz quase que sussurrado, sentiamo-nos ainda mais pequenos, constrangidos a penetrar naquele espaço quase de tons sagrados.
Mas, passado o receio inicial, compelidos pela necessidade, lá subiamos as escadas, curvavamos, cada um por seu lado e, chegados à imponente porta, a empurravamos com um típico guinchar de anos passados. Davamos por nós num imenso salão.
De um lado a figura imponente de frei Manuel do Cenáculo a ocupar toda a parede. Figura que nos vigiava, que vigiava namorados e leituras, textos e ternuras que também se trocavam naquele espaço, a tentar fintar os olhos de quem velava pela integridade do espaço, pelo pesar dos anos passados.
Do outro, o balcão a impor uma barreira de límites que apenas atravessei, já grande, estudante universitário e onde se alojavam aquelas duas figuras que tudo conheciam, que tudo sabiam.
Sempre me impressionaram pelo seu conhecimento, pela simpatia que colocaram na relação com quem, ignorante e pequeno, procurava aquele espaço. Fossem temas de ciências, artes, humanidades, ofícios ou apenas prazeres simples de descoberta eles conheciam um livro, um título adequado, útil às pequenas pretensões de quem descobria a vida nas páginas de um livro, nos textos, nas imagens.
Passados todos estes anos, tenho na Jacinta uma amiga indefectível, companheira de muitas e longas conversas, no Chitas um parceiro de cumplicidades, de troca de ideias e de amostragem de livros. Um companheiro de leituras.
No ano passado, na pausa da Páscoa, fiz uma visita guiada com os meus filhos áquele espaço, ao reencontro dos livros. Com as mesmas pessoas, e outras que entretanto aparecereram, pedimos livros para estarmos ali, apenas a passar os dedos, a folhear pensamentos, entretidos a passar uma manhã. Percorremos as suas diferentes salas, sentimos o peso dos livros, o cheiro dos anos, o respeito dos pensamentos e das ieias que aquelas estantes guardam.
A Biblioteca Pública, como sempre foi e é conhecida, faz 200 anos. Penso que a cidade deveria ser convidada, obrigada a participar nesta festa, que as portas se abrissem, que os livros pudessem, pelo menos uma vez, fugir, escapar-se pelas ruas e percorrer o exterior como sangue que nos enche as veias.
Aqueles que, no meu tempo de estudante e tal como eu, passaram tardes inteiras na companhia daquele espaço, das figuras sempre presente e eternas do Chitas e da Jacinta, sabem que é um espaço maravilhoso.
Entrei nele pela primeira vez deveria ter uns 11 ou 12 anos, fruto de um trabalho do ciclo, daquelas coisas impostas pelos professores e que nos obrigavam a procurar outras fontes de informação.
O peso do espaço oprimia uma criança e, perante aquelas formalidades e a figura daquele homem que, de dedos amarelos, óculos fundo de garrafa na ponta do nariz, entre o corcunda e o encorvado, nos pedia o bilhete de identidade num tom de voz quase que sussurrado, sentiamo-nos ainda mais pequenos, constrangidos a penetrar naquele espaço quase de tons sagrados.
Mas, passado o receio inicial, compelidos pela necessidade, lá subiamos as escadas, curvavamos, cada um por seu lado e, chegados à imponente porta, a empurravamos com um típico guinchar de anos passados. Davamos por nós num imenso salão.
De um lado a figura imponente de frei Manuel do Cenáculo a ocupar toda a parede. Figura que nos vigiava, que vigiava namorados e leituras, textos e ternuras que também se trocavam naquele espaço, a tentar fintar os olhos de quem velava pela integridade do espaço, pelo pesar dos anos passados.
Do outro, o balcão a impor uma barreira de límites que apenas atravessei, já grande, estudante universitário e onde se alojavam aquelas duas figuras que tudo conheciam, que tudo sabiam.
Sempre me impressionaram pelo seu conhecimento, pela simpatia que colocaram na relação com quem, ignorante e pequeno, procurava aquele espaço. Fossem temas de ciências, artes, humanidades, ofícios ou apenas prazeres simples de descoberta eles conheciam um livro, um título adequado, útil às pequenas pretensões de quem descobria a vida nas páginas de um livro, nos textos, nas imagens.
Passados todos estes anos, tenho na Jacinta uma amiga indefectível, companheira de muitas e longas conversas, no Chitas um parceiro de cumplicidades, de troca de ideias e de amostragem de livros. Um companheiro de leituras.
No ano passado, na pausa da Páscoa, fiz uma visita guiada com os meus filhos áquele espaço, ao reencontro dos livros. Com as mesmas pessoas, e outras que entretanto aparecereram, pedimos livros para estarmos ali, apenas a passar os dedos, a folhear pensamentos, entretidos a passar uma manhã. Percorremos as suas diferentes salas, sentimos o peso dos livros, o cheiro dos anos, o respeito dos pensamentos e das ieias que aquelas estantes guardam.
A Biblioteca Pública, como sempre foi e é conhecida, faz 200 anos. Penso que a cidade deveria ser convidada, obrigada a participar nesta festa, que as portas se abrissem, que os livros pudessem, pelo menos uma vez, fugir, escapar-se pelas ruas e percorrer o exterior como sangue que nos enche as veias.
Professor
não sei se o nome e a afirmação corresponderão realmente ao autor conhecido e reconhecido, mas não deixo de fazer referência aos textos, à palavra e às ideias deste outro senhor professor, afinal, um murcon.
ofertas
em virtude do número de abandonos e do desinteresse que muitos alunos sentem pela e na escola, procuramos criar alternativas, situações formativas que passando pela escola ofereçam outras oportunidades ao aluno.
Procuramos alternativas na legislação, em concreto de ofertas formativas alternativas, já contempladas.
Apesar disso, afinal, dizem-me que me tenho que cingir à oferta existente no âmbito da direcção Regional. Mas a escola tem outras possibilidades, outros meios, digo eu. Paciência o que existe é o possível.
É com isto que eu não concordo. A escola deve poder criar a sua oferta, ajustada às suas possibilidades, às suas capacidades, à sua realidade. As estruturas do polvo deveriam enquadrar e apoiar essas possibilidades.
Mas ainda não. Um dia será possível?
Procuramos alternativas na legislação, em concreto de ofertas formativas alternativas, já contempladas.
Apesar disso, afinal, dizem-me que me tenho que cingir à oferta existente no âmbito da direcção Regional. Mas a escola tem outras possibilidades, outros meios, digo eu. Paciência o que existe é o possível.
É com isto que eu não concordo. A escola deve poder criar a sua oferta, ajustada às suas possibilidades, às suas capacidades, à sua realidade. As estruturas do polvo deveriam enquadrar e apoiar essas possibilidades.
Mas ainda não. Um dia será possível?
paradigmático
hoje de manhã, na antena 1, António Macedo deu o mote e foi o paradigma da espera, quando afirmou que mais um dia em que não se passa rigorosamente nada, palavras do senhor, citadas de cór, uma vez que ainda não há nomes nem notícias políticas.
É paradigmática a situação que se vive em Portugal. É um dos raros momentos que, fora da sealy season, não há política e os senhores da comunicação social ficam sem notícias, sem trabalho, sem algo em que malhar.
É paradigmática a situação que se vive em Portugal. É um dos raros momentos que, fora da sealy season, não há política e os senhores da comunicação social ficam sem notícias, sem trabalho, sem algo em que malhar.
quarta-feira, março 2
das complicações
À escola chegam diariamente inúmeras situações, diversificadas, umas agradáveis outras nem tanto.
Há pouco, em conversa de corredor, pude-me aperceber de uma dessas muitas situações. Um aluno não tem vindo à escola, a Directora de turma desencadeou os necessários e legais mecanismos. Soube-se que a crise - desemprego, carências, contas por pagar, dificuldades várias - desestruturou o agregado familiar e é a confusão total. Divergências entre segurança social e tribunal agravam a capacidade de resolução, de uma eventual solução.
A escola, para o melhor e para o pior, acaba por não ser uma ilha, ainda que muitos o tentem.
Há pouco, em conversa de corredor, pude-me aperceber de uma dessas muitas situações. Um aluno não tem vindo à escola, a Directora de turma desencadeou os necessários e legais mecanismos. Soube-se que a crise - desemprego, carências, contas por pagar, dificuldades várias - desestruturou o agregado familiar e é a confusão total. Divergências entre segurança social e tribunal agravam a capacidade de resolução, de uma eventual solução.
A escola, para o melhor e para o pior, acaba por não ser uma ilha, ainda que muitos o tentem.
memória
de quando em vez faço uma espécie de marcha atrás. apenas uma espécie por que não é um voltar atrás, é antes um olhar para trás de modo a perceber o caminho que percorri, justificar talvez o cansaço.
Hoje dei por mim a ir à exactamente um ano atrás - os blogues permitem fixar o tempo e verificar das coerências. E nesse dia a situação não é, afinal de contas, muito diferente do que hoje se poderia descrever. De ângustia, de recomeço, de re-inicio. De concursos afinal.
Hoje dei por mim a ir à exactamente um ano atrás - os blogues permitem fixar o tempo e verificar das coerências. E nesse dia a situação não é, afinal de contas, muito diferente do que hoje se poderia descrever. De ângustia, de recomeço, de re-inicio. De concursos afinal.
terça-feira, março 1
espera
não sei se hei-de esperar se desesperar pelo nome do meu novo chefe, isto é, do titular da pasta da educação, do futuro(a) ministro(a).
Entre dúvidas e desespero, faz de conta que não é necessário chefe. Afinal, nós por cá todos bem, nem lhe sentimos a falta. E o sistema funciona.
Entre dúvidas e desespero, faz de conta que não é necessário chefe. Afinal, nós por cá todos bem, nem lhe sentimos a falta. E o sistema funciona.
Lento
... o andar anda lento por estas paragens da blogosfera educativa. Por razões várias sinto um certo esmorecimento, um certo cansaço, uma determinada letargia.
É o aproximar de mais um final de período lectivo, é o atacar de coisas por fazer.
Nada de anormal, afinal.
É o aproximar de mais um final de período lectivo, é o atacar de coisas por fazer.
Nada de anormal, afinal.
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